27 junho 2019

Mediocridade moral

Quando você fala mal dos outros, você se acha moralmente melhor que eles?
Noah: Posso perguntar algo?
Alison: Claro.
Noah: Você é uma pessoa boa?
Alison: O quê?
Noah: Você se considera uma boa pessoa?
Alison: Não.
Noah: Não?
Alison: Não, eu não acredito que haja boas e más pessoas. Sim, há estupradores e sociopatas, mas para além disso, acho que estamos todos fazendo o melhor para viver.
(The affair)

A opinião de Alison me deixou intrigado. E não, eu não cai na armadilha de interpretar literalmente a fala dela.

Pensando no que Alison disse, minha mente viaja e traz à lembrança as pessoas boas que conheço, as que conheci e que já se foram (morreram, poucas, ou simplesmente, a maioria, partiram para outros círculos de afetos ou outras dimensões geográficas do glorioso planeta Terra). Lembro também das pessoas bem fêlas que tenho o desprazer de conhecer, das que eventualmente e desgraçadamente cruzam por mim nos corredores da vida. Todas elas, as boas, as que prezo e admiro e as más, as canalhas, traiçoeiras, de caráter de formiga, todas poderão ser colocadas num mesmo plano? No plano negativo de não estupradores e não sociopatas? (Não tem importância o tamanho da lista negativa, o que interessa é que ela reúne extremos).

No microcosmos moral em que nos situamos, não dá. Mas talvez numa visão macro, mais longínqua e especulativa, estranhamente as coisas ditas por Alison parecem adquirir algum sentido. Em geral, somos, nós os não estupradores e não sociopatas, moralmente pouco diferentes. É decepcionante dizer isso, mas talvez as pessoas que nós desaprovamos moralmente não estejam tão distantes de nós. Certamente, ao pensar nessa distância, nosso juízo é prejudicado pela visão autoindulgente que temos sobre nosso caráter e disposições morais. Ademais, o mal que as pessoas fazem tem como base mais frequente, me parece, um determinado grau de egoísmo e não algum princípio diabólico ínsito nos seus corações. Outro fato, quando olhamos para as coisas numa perspectiva mais ampla, nossa crença (ilusória ou não) no livre-arbítrio diminui. Dificilmente alguém estaria disposto a considerar, ainda que especulativamente, o perdão a estupradores e sociopatas(estou usando o termo num sentido bem frouxo, já afirmei não me interessar literalmente com o que Alison disse). Se não perdoamos estupradores e sociopatas, perdoamos, porém, muitas pessoas que nos fizeram mal (mal mesmo, não cometimento de deslizes). Às vezes, nem perdoamos, esquecemos (o que é melhor).

Penso que talvez não haja tanta fortaleza moral em nós e nos outros para sermos bons como gostaríamos. No nosso dia-a-dia não dá pra tocar a vida com esse pensamento, mas ele pode ser útil em certas ocasiões.

Nós adoramos falar mal dos outros, mas somos todos, no fundo, muito parecidos. Não somos heróis, não somos santos, não somos vis covardes, não somos monstros. Somos bons com nossos irmãos, pais, filhos, amores e amigos. Talvez nesses círculos mais restritos possa vicejar algum heroísmo. No mais, somos muito pobres moralmente. Isso tudo que estou dizendo vale para a generalidade das pessoas, claro. Há quem sequer em seus círculos mais estritos age de modo correto.

Uso “nós”, mas deveria usar “eu”. Pelo menos o meu eu é um terreno em que posso pisar com mais segurança. Talvez minha visão dos outros, de vocês, seja muito condicionada pela visão que tenho de mim mesmo. Assim, aceitem essas palavras não como acusação de nossa frágil natureza moral, mas como um cândido desabafo, um discursinho vagabundo e confessional.