Imagino que alguns respondam dizendo que o pobre não pode (ou não deve, se você quiser) ser de direita porque ele estaria defendendo algo que vai de encontro aos seus interesses. Mas o que há de errado em alguém pensar que o justo é algo que NÃO vai necessariamente ao encontro de seus interesses? Rico de esquerda, ok? Ou a ideia, assumida sem discutir, é que todo interesse do pobre é justo e a direita, por supostamente defender o interesse dos ricos, não pode ser uma opção consistente nem com os interesses materiais do pobre, tampouco com alguma noção de justiça? Será isso? Mas qual é o interesse do pobre? É receber benesses do Estado ou ganhar a vida com o suor de seu rosto, sem ser espoliado pelas forças estatais? O que é justo é justo para todos, ok? Ao menos sobre isso podemos entrar num acordo. Não? Tem algum Trasímaco esquerdista aí (o cara que na "República" de Platão fala que a justiça consiste no interesse do mais forte)? Mas que barbaridade.
Bom, tenho de declarar que essa é minha visão das coisas, ou seja, para mim, um princípio que fixa um critério de justiça tem de ser universal. Do contrário, a justiça seria ao mesmo tempo a defesa de “A” e “não-A”. Se sou pobre, defendo “A”, e estou certo se “A” for ao encontro dos meus interesses de pobre. Se sou rico, defendo “não-A” e estou certo se “não-A” convergir com meus interesses de rico. Ora, justo não é aquilo que está de acordo com meus interesses, seja eu pobre ou rico, professor universitário ou dono de uma pequena padaria na esquina de algum bairro na periferia de Londrina (dono de padaria que paga impostos e tem rendimento mensal inferior ao sapiente professor).
Na minha opinião, a boa razão para alguém ser de direita, esquerda, autoritário ou libertário é apenas a concordância com as ideias gerais sobre uma sociabilidade política assentada em princípios considerados justos. Se o negócio é simplesmente pensar se o meu interesse vai ou não ao encontro de determinada posição ideológica, trazemos para a arena política a beligerância dos queridos e amados eus e de seus particularismos. No fundo, é isso que assistimos, não é? Mas, é claro, na camuflagem. O probleminha básico nisso tudo é que não é tarefa das mais difíceis perceber que a defesa dos pobres é apenas um amontoado de palavras usadas para a apologia dos nossos interesses bem particulares.