A filosofia não morrerá porque um governo lhe negou prata, moedas, dinheiro, favores. Bolsonaro não quer acabar com cursos de filosofia em geral. E mesmo se assim for, o que não é, acabar com cursos de filosofia não significa acabar com a filosofia. O que ele quer é que o Estado não ponha mais dinheiro no bolso de quem se dedica à filosofia. E por qual razão? Ah, eu sempre penso que as motivações de qualquer ser humano são as mais nobres possíveis, especialmente as do governo. Deve ser pelo amor do governo Bolsonaro à verdade, pois a verdade liberta. (E todos que defendem a filosofia também só amam a verdade, ora pois).
Estou pensando agora sobre a utilidade social da filosofia. É tão claro, tão incontroverso o tópico? Ora, ora, ora. Não é. Alguém que se dedica à filosofia mira, com suas pesquisas, o bem-estar físico ou psíquico dos pagadores de impostos? Talvez, mas não visa diretamente a isso, ao menos não visará diretamente a isso se seguir praticando o modo tradicional e dominante das pesquisas filosóficas acadêmicas. Mas mesmo que a maioria dos professores e pesquisadores universitários de filosofia tivesse como objetivo de seus estudos o bem-estar dos pagadores de impostos, qual seria o critério usado para aferir se eles atingiram esse fim? De minha parte, desde meus estudos na graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, docência, pesquisas, artigos, de minha parte nunca tive como alvo o bem-estar dos pagadores de impostos (imagino que, entre outros, tampouco o estudioso e pesquisador da matemática pura acalente esses fins utilitários). Confesso que, no meu caso, nem indiretamente pensei nisso.
A verdade liberta ou não? Sei que a autocrítica não deve ser esperada de quem está numa peleja comportando-se como um guerreiro numa batalha. Se alguém quer te acertar a cabeça, você não vai pedir pausa para reconhecer certos erros. Mas de filósofos se pode esperar mais do que beligerância meramente defensiva (uma beligerância mais ou menos fingida).
Quando alguém pretende buscar e transmitir o conhecimento pelo conhecimento, investigar o que é o mundo, o valor e o sentido da existência, ele adquire o direito – se passar num concurso, claro - de receber proventos do Estado para fazer isso? (Ocorre-me também que, depois de formado em uma universidade pública, um estudante não está obrigado a uma contrapartida social). Desagradável o papo, não é? Bom, quanto a mim, devo dizer que filosofias muito agradáveis não me agradam muito. (Ah, não me refiro aqui ao que é mais urgente quanto aos problemas educacionais, não trato nem lateralmente de projeto de educação para o país, nada disso. Penso em alguém que tenha autêntica inclinação para os estudos filosóficos e também queira ensinar; sim, ele precisa estar ciente disso. Tem ensino).
Antes da despedida, peço que leiam com atenção o que Schopenhauer (todos concordam que é um grande filósofo, ok) tem a dizer sobre algo que toca o ponto acima.
Quem não tem a ver com filosofia do Estado e com filosofia da diversão, mas com conhecimento e, portanto, com a séria e desprendida investigação da verdade, tem de buscá-la em qualquer outro lugar que não nas universidades, onde sua irmã, a filosofia ad normam conventionis dirige a casa e redige o cardápio. Eu me inclino cada vez mais à opinião de que seria mais saudável para a filosofia se ela cessasse de ser uma profissão e não mais entrasse em cena na vida civil representada por professores. Ela é uma planta que, como rododendro e a flor dos penhascos, só medra no ar puro da montanha, mas degenera sob cuidados artificiais.
(Sobre a filosofia universitária. Trad. Maria Lúcia Cacciola).
Como é bom poder contar com a leitura e compreensão dos amantes da filosofia, pessoas que vivem não apenas da filosofia, mas para a filosofia.