27 abril 2019

Bolsonaro e a filosofia

Ó meu grande leitor de profundos livros de filosofia, grande conhecedor das pesquisas acadêmicas, meu querido presidente, meu herói. O senhor escreveu no Twitter que há um estudo do Ministro da Educação com vistas a “descentralizar investimento em faculdades de filosofia e sociologia (humanas). Alunos já matriculados não serão afetados. O objetivo é focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como: veterinária, engenharia e medicina”. Sim? Ou foi o 02 que escreveu? Foi o 02 que deu a ideia para o Ministro da Educação, ideia que o 03 lhe passou quando recebeu a ordem de um outro que mora nos EUA? Foi isso, meu presidente? Relaxa, não tem importância. Continuemos.

Eu acho, com sua permissão, que são necessários esclarecimentos. A ideia geral de que um governo tem autoridade para definir prioridades com o gasto do dinheiro público parece aceitável, dentro das margens legais claro (o senhor deve conhecê-las, sim?). O senhor, todos sabem, é um apreciador de filosofia. Até apareceu, no discurso logo após o resultado das eleições, com o livro de um eminente filósofo, mundialmente conhecido (o livro desse filósofo foi traduzido em 47 línguas já, dada a sua absoluta relevância filosófica). O senhor justifica que a “função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta”. Ok. Vamos admitir por caridade isso.

O senhor é um liberal convicto e eu um libertário. Sendo assim, nossas diferenças, embora profundas, não impedem um acordo pontual, não é? Diga-me uma coisa: como o senhor chegou a essa conclusão sobre as faculdades de Filosofia e Ciências Sociais (o senhor falou Sociologia, mas acho que não se limita a essa ciência social)? Eu que sempre tenho boa vontade com todos os seres humanos, gostaria de saber quais são os números, meu bom cristão e formidável presidente? O senhor deve ter, não? Ou estão sob sigilo? Quanto o governo gasta com Filosofia e Sociologia? Por que só Filosofia e Sociologia? Artes, tudo bem? História, ok? E Letras, será suprimida literatura da grade curricular? Ajude-me a ajudá-lo presidente. Outra coisa, o senhor poderia explicar melhor esse conceito de “bem-estar para a família” e o conceito de benefícios sociais dos cursos que o governo federal banca nas universidades? O senhor deve ter números sobre isso também, não é? Preciso dessas respostas, meu bom presidente. Não quero que ninguém pense que o senhor gostaria que a Filosofia fosse ensinada apenas por algum ilustre desconhecido, por um provocadorzinho barato, não é? O senhor gosta da boa filosofia. Deve amar Platão, Aristóteles, Kant, Schopenhauer. Talvez prefira Tomás de Aquino, ok, sem problemas.

Bom, meu querido presidente, é isso. Depois das informações que o senhor não tardará em oferecer à nação, prometo defender a sua ideia. Serei seu soldado.