12 fevereiro 2019

Roma

Que belíssimo filme. Que sensação benfazeja a de nos conectarmos empaticamente com personagens tão humanos como a empregada doméstica Cleo. Até parece que nos tornamos seres humanos melhores quando assistimos a algo tão bonito, não apenas tocante em termos morais, mas visualmente encantador também (afinal de contas trata-se de um filme).

É difícil não se enternecer com a placidez de Cleo, com sua dor silenciosa. Uma dor silenciosa que se rompe num momento de altruísmo quase heroico. Isso ocorre quando ela evita que as ondas do mar levem Paco e Sofi, filhos de sua patroa, Sofia. Nesse momento altruísta irrompe o soluço egoísta: ‘Eu não a queria”

Cleo: Eu não a queria. 
Sofia: O quê? 
Cleo: Eu não a queria.  
 Sofia: Eles estão bem. 
Cleo: Eu não queria que ela nascesse.

Eu não esperava que ela nutrisse esse sentimento. Confesso que essa revelação não me caiu bem. No fundo, as palavras “eu não queria que ela nascesse” foram deglutidas por mim com um misto de antipatia moral e compreensão. Talvez sobretudo de compreensão. Sim, compreensão, pois ali se evidenciava a humanidade contraditória de Cleo. A confissão desdizia as suas lágrimas dentro da maternidade, quando segurou o corpo sem vida de sua filhinha? Não, certamente ela sofreu a perda. Quem sabe, ela simples e humanamente quisesse e não quisesse.