17 dezembro 2018

Alice

Você não dorme, meu benzinho? Quer bater um papo? Hum, pode ser uma declaração de amor? O velho tema, as velhas frases... Talvez, querida. Mas nosso papo é todo pessoal, não é? É totalmente só nosso, então posso dizer que são novas, são intensas as emoções que tua existência desperta em mim. Mais um serzinho amado para zelar. E mais um coração em meu corpo, pois, claro, meu bem, você não vai dividir espaço com a Helena no coração do pai, sua bobinha. Não, porque eu tenho mais um coração agora, e ele é só teu. E não tenho apenas dois. Você sabe, minha lindinha, temos vários seres amados e eles não disputam lugar no mesmo músculo cardíaco. Eles têm domínios próprios e absolutos.

Lembro-me de uma canção – aposto que você também se lembra - que diz


E as paredes da dúvida desmoronam, são arremessadas e rasgadas
Isso acontece quando uma criança nasce
[And the walls of doubt crumble, tossed and torn
This comes to pass when a child is born]

When a child is born... lembra-se dessa canção, meu amor? Num domingo desses, estávamos juntos, sozinhos, e você a ouviu. Eu tentava te acalmar. Tua mãe e a Helena tinham ido à farmácia e bateu certo nervosismo em você, um choro vigoroso e básico. Eu te peguei no colo, te segurei com um braço (como teu corpinho está firme ...) e comecei a te embalar. Com a outra mão coloquei essa canção para tocar no celular. Ela tem momentos pueris, sim, um romantismo tolo que tantos acreditam. Mas, minha gatinha, isso tem importância agora? Até porque, sejamos justos minha belezura, essa canção diz coisas lindas, e as diz lindamente; e você viu, no rosto do pai, as lágrimas surgirem ...


Por toda a terra, amanhece uma nova manhã
Isso acontece quando uma criança nasce
[All across the land, dawns a brand new morn
This comes to pass when a child is born]

Você se acalmou com ela, meu benzinho. Você parece ter gostado, e isso era o mais importante. Eu tentei acompanhar a música cantando para você. Ah, esses momentos, Alice, minha lindinha... Obrigado por esses momentos. Para o teu pai, não há um Deus para agradecer. Há, porém, um sentimento estranho de gratidão pela vida, pela beleza de poder contemplar teus olhinhos transitando do choro para a quietude, da placidez para a atenção. Olhinhos que, abruptamente, ficam alertas e transmitem um brilho, uma luz para meu ser, e fazem isso, seus olhinhos, apenas porque se deparam com as pequenas e notáveis novidades do mundo, novidades que você colhe tão bem a cada dia, minha caçulinha amada. Vamos ouvir de novo a música? Óhmm, que rostinho irresistível, deixa o pai te pegar no colo e te dar mais um beijo.