29 maio 2018
Candidatos a presidente
Ontem vi a entrevista do Ciro Gomes no Roda Viva. Foi legal assistir, em que pese a docilidade dos entrevistadores. (Em geral, é assim mesmo. Jornalistas são destemidos nas redações. Quando rola um cara a cara eles tendem a ficar mansinhos). Ciro Gomes tem presença. Ele dá a impressão de estar relativamente confortável na condição de entrevistado. Ele fala com desenvoltura, sua retórica é boa – se bem que, às vezes, sua exaltação verbal o torne burlesco. Ciro não esmorece diante de questões que exigem doses de improvisação argumentativa. Somos até brindados com uma citação de Maquiavel aplicada à burrice política da Dilma. Retoricamente ele deixa Bolsonaro comendo poeira. Bolsonaro parece sofrer para transmitir suas ideias. Mas o ex-governador do Ceará, ex-prefeito de Fortaleza e tal e tal não convence. E não penso em temas doutrinários ou ideológicos, pois aí não me convenceria de jeito nenhum. Penso aqui mais na forma. Ele enrola em certos momentos de modo flagrante. Reconheço, porém, que há racionalidade em muitas de suas respostas e comentários. Quando ele critica a falta de concorrência no sistema financeiro, quando ele bate no Itaú Unibanco, ele tem um ponto muito bom. Ele falando do Temer é ótimo ("um escroque”). Outras respostas, mesmo discordando delas, são razoáveis, argumentativas. Mas ouvi-lo falar da Venezuela, de aborto, descriminalização das drogas, barbaridade. Aí ele é o típico político enrolador. Toda sua bravura verbal murcha e o próprio tom de sua voz perde em veemência. Em resumo, pode-se dizer que há dois defeitos salientes nele. É um candidato de esquerda, o que significa, sejamos claros, um autoritário. E ele acha que pode se prevalecer diante de entrevistadores dóceis e de possíveis eleitores (talvez enfeitiçados) com um discurso firme e superficialmente articulado que emite muitos sons, mas praticamente nada diz (nem sempre, sim, nem sempre, em vários momentos, o que ele diz tem conteúdo e é inteligível). O segundo defeito significa que ele é simplesmente um político, isto é, um demagogo. Mas para deixar clara minha posição, eu que votarei no candidato número “00”, se fosse coagido a escolher entre ele e Bolsonaro votaria nele (acho que Bolsonaro é uma ameaça maior à liberdade individual que Ciro Gomes). Para entender a situação virtual em que eu poderia me encontrar e que me conduziria a votar no mui valente demagogo, acredito que sejam úteis as seguintes palavras de Aristóteles. “Mas, quanto às coisas que se praticam para evitar maiores males ou com algum nobre propósito (por exemplo, se um tirano ordenasse a alguém um ato vil e esse alguém, tendo os pais e os filhos em poder daquele, praticasse o ato para salvá-los de serem mortos) é discutível se tais atos são voluntários ou involuntários. Algo de semelhante acontece quando se lançam cargas ao mar durante uma tempestade; porque, em teoria, ninguém voluntariamente joga fora bens valiosos, mas quando assim o exige a segurança própria e da tripulação de um navio, qualquer homem sensato o fará” (Ética a Nicômaco, III, 1).
