Há uma passagem belíssima (uma entre tantas) em que Charmian, uma senhora de 86 anos, sozinha em casa, acha-se tentada a fazer um chá. Para ela isso seria uma proeza. Ela encara o desafio.
Charmian caminhou até a biblioteca e com o maior cuidado atiçou o fogo. O esforço de ter-se curvado deixou-a cansada e foi obrigada a sentar-se uns instantes na poltrona. Depois de uns momentos, veio a hora do chá. [...] Charmian sentiu-se de repente tomada de uma trepidação e prazer. Seria capaz de fazer o chá ela mesma? Sim, iria tentar.Duas páginas descrevem a epopeia vivida pela interessante senhora para fazer o chá. No fim da descrição, o leitor, já emocionado (se tiver coração), lê:
Depois de ter levado tudo para a biblioteca, fechou a porta, colocou a bandeja numa mesinha baixa, ao lado da poltrona, e arrumou todas as coisas do chá por cima. Cochilou na poltrona, sentindo-se grata, por mais cinco minutos, depois serviu-se com grande cuidado, espirrando muito pouco no pires. Mesmo aquele pouquinho, ela despejou de volta na xícara. Estava tudo igual, exceto o fato de se achar abençoadamente sozinha, e o chá não estar de todo quente. Começou a saborear o chá.
(Muriel Spark. Memento mori. Tradução de Beth Vieira. São Paulo. Cia das Letras, 2001, pp. 143-145).
