14 junho 2018

Velhice, doença, morte, chá

Memento Mori (lembre-se da morte), de Muriel Spark, está entre os 10 livros que mais me tocaram. Uma vez fiz uma lista com os dez títulos mais tocantes (está aqui no blog, em algum canto intocado). Hoje provavelmente revisaria dois ou três títulos da lista. Mas manteria Memento mori. Dia desses me deparei com ele empoeirado numa prateleira aqui no gabinete sagrado. Li esse livro há 16 anos. Há 16 anos, recordo-me, tive o imenso prazer de conhecer e sorver o seu fino humor ao tratar da morte. Não me lembro bem da história. É um romance sobre velhos e a velhice, sobre doentes e a doença, vivos, mortos e a morte. Ao longo da história os personagens recebem telefonemas anônimos de alguém que diz: “Lembre-se de que vai morrer”.

Há uma passagem belíssima (uma entre tantas) em que Charmian, uma senhora de 86 anos, sozinha em casa, acha-se tentada a fazer um chá. Para ela isso seria uma proeza. Ela encara o desafio.
Charmian caminhou até a biblioteca e com o maior cuidado atiçou o fogo. O esforço de ter-se curvado deixou-a cansada e foi obrigada a sentar-se uns instantes na poltrona. Depois de uns momentos, veio a hora do chá. [...] Charmian sentiu-se de repente tomada de uma trepidação e prazer. Seria capaz de fazer o chá ela mesma? Sim, iria tentar.
Duas páginas descrevem a epopeia vivida pela interessante senhora para fazer o chá. No fim da descrição, o leitor, já emocionado (se tiver coração), lê:
Depois de ter levado tudo para a biblioteca, fechou a porta, colocou a bandeja numa mesinha baixa, ao lado da poltrona, e arrumou todas as coisas do chá por cima. Cochilou na poltrona, sentindo-se grata, por mais cinco minutos, depois serviu-se com grande cuidado, espirrando muito pouco no pires. Mesmo aquele pouquinho, ela despejou de volta na xícara. Estava tudo igual, exceto o fato de se achar abençoadamente sozinha, e o chá não estar de todo quente. Começou a saborear o chá.
(Muriel Spark. Memento mori. Tradução de Beth Vieira. São Paulo. Cia das Letras, 2001, pp. 143-145).