20 novembro 2017

Me engana que eu gosto. Não, melhor, deixa que eu mesmo cuido disso


Para mim, quando as coisas são boas, refiro-me aqui às coisas da literatura, geralmente entra em cena um ponto crucial da errância humana, o autoengano (uma vez escrevi sobre isso tomando O pai Goriot de Balzac como referência. Está aqui no blog). Bom, eu diria que a própria filosofia, a boa (o mesmo que dizer: a que aprecio nos últimos tempos, a que tem uma pegada mais existencial sem ser existencialista) precisa se confrontar com esse ponto.

Pensem na Lila e no Stefano. Sim, pensem neles só um pouquinho. Lila vive dizendo para Stefano que o filho não é dele. Mas não é legal ouvir isso da tua mulher. Não é bom para Stefano se deter nessas palavras, encarar com mais atenção os fatos, interpretar indícios, compor o quadro geral. Ele prefere acreditar que ela mente, que ela quer provocá-lo, humilhá-lo talvez. Mas chega um dia em que ele fica a um milímetro de sacar tudo e diz pra ela: "Vagabunda, se você repete isso sempre então quer dizer que é verdade. Não quero nunca mais ver você, nem ele". Pobre do garotinho, o Rinuccio, que pelo jeito gostava do suposto pai. Imediatamente após lermos essa imprecação de Stefano, Elena Ferrante segue assim o magistral segundo romance da série napolitana, História do novo sobrenome. "Na verdade, ele [Stefano] nunca acreditou nisso. Mas fez de conta, por oportunismo. Preferiu que a tranquilidade vencesse sobre o caos emotivo que ela lhe causava". Fantástico. Agora ele quer acreditar que é verdade que ele não é o pai, mas no fundo acredita que é o pai. Dessas duas crenças, ele adota aquela que lhe é mais conveniente. Bah, pessoal, me identifico por demais com essas histórias de autoengano. Pintamos o mundo como nos convém. Colocamos cores fortes de um lado e fortes de outro para demarcar bem as coisas, já que elas mesmas, sem nossos pinceizinhos mágicos, poderiam dizer, "olha, é um pouco mais complicado", "olha, não é isso".

Mas a gente sempre tem o que a gente merece. Sim, sim, e é nesse caso que talvez eu me encaixe melhor. Eu gostaria de acreditar que as pessoas acreditam no que gostam de acreditar. Porém, olhando com mais atenção, percebo que há pessoas que resistem a esse convite à facilidade, à preguiça, à covardia mental. Elas são puxadas para o lado mais simples, pois assim parece mais fácil garantir a sobrevivência, mas resistem e conseguem olhar para o outro lado, para cima, para trás.

É difícil, para mim, abandonar a crença de que os seres humanos são estruturalmente vítimas do autoengano. Então eu procuro em tudo que vejo um elemento de corroboração da minha crençazinha. É uma droga saber que podemos adiar a dor do desengano. Como sabemos disso (maldição!), adiamos. Ademais, é deveras difícil - já disseram - a cabeça abrir a porta para aquilo que o coração não gosta. E não poderia ser muito diferente. Ok? “Ok, maybe” para ficar brincando (pela última vez, prometo) com as sábias palavras de Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) do magistral "Oito odiados".