Não sabemos se devemos continuar esperando Godot, se alguma vez devíamos ter esperado Godot. Mas continuamos esperando. Às vezes, com mais fé, outras nem tanto. Mas não é uma fé sem dúvida. Parece mais um querer acreditar que ele virá, ou simplesmente que vale a pena, por alguma razão, esperar. Mas sempre na dúvida. Na dúvida, continuamos aqui. Bah, ainda estou atordoado.
Três pedacinhos? Ok? Vejam só!
Estragon - Veja só! [...] Que engraçado, quanto mais vai, pior fica.
Vladimir - Comigo é ao contrário.
Estragon - O que quer dizer com isto?
Vladimir - Vou me acostumando aos poucos.
Estragon - E isso é o contrário?
Vladimir - Questão de temperamento
Estragon - De caráter.
Vladimir - Não tem jeito.
Estragon - Não adianta se debater.
Vladimir - Somos o que somos.
Estragon - Não adianta se contorcer.
...
Vladimir - (sentencioso) A cada um sua pequena cruz. (Suspira) Um piscar de olhos e um rápido adeus.
Estragon - Enquanto esperamos, vamos tratar de conversar com calma, já que calados não conseguimos ficar.
Vladimir - É verdade, somos inesgotáveis.
...
Vladimir - O certo é que o tempo custa a passar, nestas circunstâncias, e nos força a preenchê-lo com maquinações que, como dizer, que podem, à primeira vista, parecer razoáveis, mas às quais estamos habituados. Você dirá: talvez seja para impedir que nosso entendimento sucumba. Tem toda a razão. Mas já não estaria ele perdido na noite eterna e sombria dos abismos sem fim? É o que me pergunto às vezes. Está acompanhando o raciocínio?
(Tradução de Fábio de Souza Andrade. Cia das Letras, 2017.)
