31 outubro 2017

Esperando Godot

Vejam só como é a vida (oh, conta aí como é). Um texto que deveria ter lido há tantos anos. Há mais de uma década, sim, certamente faz mais de dez anos, o Marcos Rodrigues comentou a peça de Samuel Beckett comigo. Talvez  ele até tenha ficado surpreso com o fato de eu não ter lido, isso já não me lembro mais. Mas me lembro que ele disse, “acho que você iria gostar”. Uma indicação de leitura sem aquela arrogância professoral típica dos que falam, “ah, você deveria ler esse livro”, “você precisa assistir a esse filme”. Quem conhece o Marcos sabe que ele não apenas é sutil, mas um ser humano educado, afável. Bom, eu achei interessante o que ele falava sobre Estragon e Vladimir, mas deixei pra lá. A vida continuou. E é incrível que ela tenha continuado sem que eu tivesse lido Esperando Godot. Pois, há poucos dias, eis que ocorre mais um extraordinário acontecimento em minha vida. Li finalmente, numa sentada (é claro), Esperando Godot.

Não sabemos se devemos continuar esperando Godot, se alguma vez devíamos ter esperado Godot. Mas continuamos esperando. Às vezes, com mais fé, outras nem tanto. Mas não é uma fé sem dúvida. Parece mais um querer acreditar que ele virá, ou simplesmente que vale a pena, por alguma razão, esperar. Mas sempre na dúvida. Na dúvida, continuamos aqui. Bah, ainda estou atordoado.

Três pedacinhos? Ok? Vejam só!

Estragon - Veja só! [...] Que engraçado, quanto mais vai, pior fica.
Vladimir - Comigo é ao contrário.
Estragon - O que quer dizer com isto?
Vladimir - Vou me acostumando aos poucos.
Estragon - E isso é o contrário?
Vladimir - Questão de temperamento
Estragon - De caráter.
Vladimir - Não tem jeito.
Estragon - Não adianta se debater.
Vladimir - Somos o que somos.
Estragon - Não adianta se contorcer.
...
Vladimir  - (sentencioso) A cada um sua pequena cruz. (Suspira) Um piscar de olhos e um rápido adeus.
Estragon  - Enquanto esperamos, vamos tratar de conversar com calma, já que calados não conseguimos ficar.
Vladimir - É verdade, somos inesgotáveis.
...
Vladimir - O certo é que o tempo custa a passar, nestas circunstâncias, e nos força a preenchê-lo com maquinações que, como dizer, que podem, à primeira vista, parecer razoáveis, mas às quais estamos habituados. Você dirá: talvez seja para impedir que nosso entendimento sucumba. Tem toda a razão. Mas já não estaria ele perdido na noite eterna e sombria dos abismos sem fim? É o que me pergunto às vezes. Está acompanhando o raciocínio?
(Tradução de Fábio de Souza Andrade. Cia das Letras, 2017.)