Me tocam bastante as palavras de Schopenhauer, esse maravilhoso escritor (e até filósofo era), que em uma de suas páginas nos brinda com uma preciosidade (entre tantas), uma espécie de adorno retórico-filosófico da verdade do "Valar Morghulis!"
Assim como o andar é de fato uma queda continuamente evitada, a vida de nosso corpo é apenas um morrer continuamente evitado, uma morte sempre adiada. Por fim, até mesmo a atividade lúcida de nosso espírito é um tédio constantemente postergado. Cada respiração nos defende da morte que constantemente nos aflige e contra a qual, desse modo, lutamos a cada segundo, bem como lutamos nos maiores espaços de tempo mediante a refeição, o sono, o aquecimento corpóreo etc. Por fim, a morte tem de vencer, pois a ela estamos destinados desde o nascimento e ela brinca apenas um instante com sua presa antes de devorá-la. Não obstante, prosseguimos nossa vida com grande interesse e muito cuidado, o mais longamente possível, semelhante a alguém que sopra tanto quanto possível até certo tamanho uma bolha de sabão, apesar de ter a certeza absoluta de que vai estourar.
(O mundo, § 57. Tradução de Jair Barboza)
Isso não significa que eu subscreva seu pessimismo. Mil vezes antes Epicuro e Montaigne que Schopenhauer nesse ponto. Mas a passagem acima não implica necessariamente pessimismo. Apenas uma sobriedade, talvez pouco adequada para uma manhã de domingo. Mas logo chega a tarde e o crepúsculo e aí a gente pode absorver melhor a verdade dessas palavras. E também não podemos esquecer que embora a reposta, em alto valiriano, para "Valar Morghulis" ("todos os homens devem morrer") seja “Valar Dohaeris” ("todos os homens devem servir"), há também as singelas palavras “hoje, não”.
“Existe apenas um Deus e o nome dele é Morte. E existe só uma coisa que dizemos para a Morte: hoje não!” (Syrio Forel).

