01 setembro 2017

Triste é o fim

Terminei há poucos dias a leitura do romance A amiga genial. Que livro belíssimo! E que vazio atroz quando cheguei à última frase, à última palavra, ao último suspiro da história que me envolvia. Pensando bem, acho que quando chegava ao fim não era exatamente o vazio, era uma apreensão, um medo. O vazio veio logo em seguida. Agora, terminada a leitura, sinto-me só, abandonado, como se o universo tivesse sido, ele inteiro, organizado para me magoar. Estou carente, muito carente. Pergunto-me: e agora, como tocar a vida sem os relatos da vida da garota Greco? Quem puder, me responda. Oh, claro, claro, já pressinto que alguém poderia responder dizendo: “continue lendo, é uma tetralogia, parta imediatamente para a leitura de a História do Novo Sobrenome". Sinto, porém, que isso não resolveria o mal-estar que conto aqui. Não resolveria porque eu teria de esperar chegar, caso comprasse pela Internet, ou dar um pulo numa livraria. De todo modo, eu viveria essa dor, seja por mais ou menos tempo. E embora eu não seja exatamente um masoquista, tem algo bom nessa dor, algo como, “veja, você pode sobreviver aos terríveis golpes da vida”.

É interessante que isso é muito diferente com livros de filosofia (eu basicamente consumo livros de filosofia e de literatura, dois tipos que produzem em mim prazeres intensos, mas distintos). Os de filosofia, sei que terei de voltar. Num certo sentido, não há fim nessa leitura. Vou precisar fazer apontamentos, talvez preparar uma aula, enfim uma relação bem diferente. Meu intelecto é geralmente recompensado com essas leituras mais pesadas de certos livros de filosofia, não, porém, minha imaginação, ou pelo menos não da mesma forma (pois ocorre, sim, ocorre às vezes afagos em minha imaginação quando perambulo pelas profundas páginas especulativas dos livros de filosofia). Até poderia ser contada uma história, o que eventualmente pode ocorrer, mas ela estaria subordinada ao desenvolvimento de teses, à apresentação de uma teoria, à defesa de um argumento. Será que isso se deve ao fato de a filosofia não ser arte? Ora, ora, ora, a filosofia não é também uma arte? É... pode ser. Sinto, entretanto, que não é esse o ponto. A dor de chegar ao fim da leitura de um romance também não poderia ser explicada por um contraste assim tão rápido com os livros de filosofia. Afinal, também posso voltar à história. A releitura às vezes é aprazível. Sim, mas bem diferente. Nada vai se equiparar à primeira leitura. E eu, na verdade, releio poucos romances. Quando volto aos romances que li, na maioria das vezes volto para saborear com mais atenção e prazer um trecho, uma frase, uma combinação tocante de palavras. É um retorno às páginas muito diferente do retorno ao texto com pretensões diretamente filosóficas, ok, mas ainda é um retorno a um caminho que já percorri e que, não obstante permitir que eu note coisas novas, não se compara ao percurso primitivo que me arrebatou e chegou ao fim – e chegando ao fim me desconsolou.

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Caso alguém fique curioso, eis aqui as referências dos dois livros que mencionei de Elena Ferrante.
A amiga genial. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015.
História do Novo Sobrenome. Tradução de Maurício Santana Dias. São Paulo: Biblioteca Azul,2016.