João Pereira Coutinho escreveu, na terça, um belo texto sobre o radicalismo islamita e a tragédia de Orlando. Suas palavras finais são deveras apropriadas. “Quando escrevo sobre o ódio do radicalismo islamita ao ‘estilo de vida’ ocidental, tudo que defendo é esse estilo de vida. Você sabe: o direito a cada um viver como entende, com quem entende, em segurança e liberdade, sem nenhuma punição "sagrada". O básico. Porque, se fecharmos os olhos ao básico, perderemos muito mais do que o nosso nariz”.
O que envolve, a meu ver, o direito de criticar, zombar, ridicularizar qualquer modo de vida, qualquer comportamento. Qualquer indivíduo tem o direito sagrado de gozar de machões, bonecas, homossexuais, lésbicas, cristãos, ateus, muçulmanos. Opinião e todas as formas concebíveis de liberdade de expressão de ideias dizem respeito ao modo como uma pessoa quer viver e JAMAIS impedem que outras pessoas vivam de jeito que bem entenderem. Daí esse papo contra homofobia requerer ajustes. É a mesma liberdade a que reclama o homossexual a possivelmente reivindicada por alguém que queira expressar sua reprovação ao homossexualismo sem impedir a liberdade de outros. Penso no homossexual que quer levar a vida que ele prefere viver, sem impor seu modo de viver aos outros. Ele não quer impor aos outros um único e socialmente aceitável beijo na boca, o beijo na boca entre pessoas do mesmo sexo. Ora, alguém que reprove o comportamento dos homossexuais não quer (não precisa necessariamente querer) impor que todos pensem como ele, e muito menos que se faça uso da força contra modos diferentes de pensar e se comportar.
Reprovar o comportamento dos outros não implica disposição consequente de cometer homicídio, de ferir, de impedir a liberdade de quem quer que seja. Não sei se Coutinho chega a esse ponto. Mas é certo que deveria. Não penso que alguém pretenda matar, nem impedir em algum grau a liberdade de ninguém quando vira o rosto para um casal de homossexuais se beijando, nem quando diz, "ui, o veadinho", "ah, a boneca", "ah, olha a sapatinho ". Pessoas assim revelam seu "ser ético", mas não ferem algum direito natural que possa ser justificadamente reivindicado por outrem com consequente uso de coerção contra aquele que não move um dedo em direção à liberdade alheia. Nesse blog, há mais de um milhão de posts sobre o que é eticamente indesejável, porém juridicamente permissível. Esse é o caso desse camaradinha que muitos chamam de homofóbico (nesse caso, um homofóbico que nunca invade a esfera da liberdade alheia, nunca fere o direito de ninguém). Esses homofóbicos existem e não cometem crime moral algum. São seres eticamente dignos de censura, mas não há autorização jurídica aceitável para usarmos coerção contra eles.
* (os termos ético, moral, jurídico têm, aqui, inspiração kantiana. Só inspiração, mas isso já é suficiente para deixar claro que não uso joelheiras quando leio códigos do direito positivo).
Que texto sério. Nossa, ando irreconhecível.
Abaixo, segue integra do artigo de Coutinho.
Na frente do nariz
É difícil dizer certas coisas. Como lembrava o imortal (e esquerdista) George Orwell, ver a realidade que temos na frente do nariz talvez seja o exercício mais complexo de todos. Mas devemos tentar.
E eu tento: regularmente, nas colunas desta Folha, critico o radicalismo islamita por seu ódio ao "estilo de vida" ocidental. Um ódio que não começou no 11 de Setembro nem com o saudoso Osama Bin Laden.
A história é mais antiga e remonta a finais do século 19, inícios do século 20. Como escreveu o historiador Bernard Lewis, a questão para os muçulmanos passava por saber como explicar o atraso material das suas sociedades quando comparadas com a prosperidade do Ocidente.
E a resposta, na maioria dos casos, não passou por uma análise à fraqueza institucional dessas sociedades e ao papel excessivo da religião nas esferas pública e privada. Como normalmente acontece quando existem complexos de inferioridade, a culpa não era dos próprios. O problema estava nos outros: nos ocidentais que venderam a alma pelo materialismo rasteiro da modernidade.
Agora que penso no assunto, essa também foi a atitude da primeira geração romântica perante o iluminismo continental e, claro, os exércitos napoleônicos. Paris podia representar o "progresso"; mas o verdadeiro progresso que interessava à "intelligentsia" das províncias germânicas era a defesa da "vida interior" e de uma "autenticidade" da existência que passava pela valorização da língua, da cultura, da nação –e, a prazo, do sangue e da raça. Ler Isaiah Berlin é instrutivo sobre a matéria. Mas divago.
Ou não. Porque a resposta da "intelligentsia" islamita ao atraso passou também por uma exaltação da pureza corânica como barreira necessária contra a contaminação ocidental. Uma atitude sem retorno, que se aprofundou violentamente com a desagregação do Império Otomano (depois da Primeira Guerra) e com a dominação "de facto" das potências europeias nas terras do Profeta.
Nos textos de Mawdudi, Hassan al-Banna ou Sayyid Qutb, encontramos sempre essa repulsa ao Ocidente pela revalorização radical da mensagem sagrada.
O caso de Sayyid Qutb, aliás, é exemplar: ele, o principal teórico do islamismo sunita, visitou os Estados Unidos na década de 1950. E, nas páginas que escreveu sobre o viagem, legou um retrato sinistro sobre a "libertinagem" dos nativos. Por "libertinagem", entenda-se: mulheres com maquiagem, usando minissaia e dançando com o sexo oposto. Qutb testemunhara o inferno e o inferno que ele viu perdurou.
Regularmente, repito, escrevo sobre o ódio islamita ao "estilo de vida" ocidental. E recebo como resposta, para além de insultos rasteiros, o clássico carimbo da "islamofobia". O terrorismo, quando existe, é sempre culpa dos Estados Unidos, de Israel, da França, do Mickey Mouse e do Pato Donald.
Ou então, em ligeira variação da cegueira, a culpa é das armas que se vendem sem controle, como afirmou Barack Obama depois do massacre da Flórida –o maior ataque terrorista em solo americano desde o 11 de Setembro.
Azar, senhor presidente: os fatos começam a surgir na frente do nosso nariz. Temos um cidadão americano, de origem afegã, que jurou lealdade ao Estado Islâmico. E que escolheu como alvo uma boate gay onde abateu 50 pessoas e feriu 53 (no momento em que escrevo).
Como é evidente, ataques "homofóbicos" acontecem em qualquer lugar (e blablablá). Mas podemos afirmar, sem correr o risco de "islamofobia", que o tratamento bárbaro que muitos países islâmicos reservam para homossexuais, mulheres adúlteras ou simplesmente "emancipadas" também explica o ódio cultural (e religioso) de Omar Mateen?
Eu sei que, em matéria de "homofobia", ninguém bate a intolerância da Igreja Católica. Mas será possível sugerir que chicotadas, prisão efetiva ou até enforcamento de homossexuais também deveria merecer mais atenção das brigadas politicamente corretas, que só entram em fúria quando o Papa não abençoa o casamento gay?
Eis a moral da história: quando escrevo sobre o ódio do radicalismo islamita ao "estilo de vida" ocidental, tudo que defendo é esse estilo de vida. Você sabe: o direito a cada um viver como entende, com quem entende, em segurança e liberdade, sem nenhuma punição "sagrada". O básico. Porque, se fecharmos os olhos ao básico, perderemos muito mais do que o nosso nariz.
(Folha de São Paulo, 14/06/2016)