“Alguns de meus amigos por vezes resolveram criticar-me e recriminar-me de peito aberto, seja por iniciativa própria ou solicitados por mim, como um dever que, para uma alma bem formada, supera todos os deveres da amizade, não só em utilidade, mas em gentileza também. Sempre o acolhi com os braços mais abertos da cortesia e do reconhecimento. Mas para falar neste momento em sã consciência, volta e meia vi em suas críticas e seus elogios tanta falsa medida que eu não estaria errado em fazer errado ao meu jeito, em vez de certo ao jeito deles. Nós, principalmente, que vivemos uma vida interior que só está à mostra para nós, devemos ter estabelecido um modelo interior que seja a pedra de toque de nossos atos, pela qual ora nos lisonjeamos, ora nos castigamos. Tenho minhas leis e meu tribunal para julgar a mim mesmo, e a eles me dirijo mais que a outro lugar. Acontece-me modificar meus atos de acordo com o julgamento alheio, mas só atendo na realidade meu próprio juízo. Só vós é que sabeis se sois covarde e cruel, ou leal e devotado: os outros não vos veem, advinham-vos por conjecturas incertas”. (Montaigne. “Do arrependimento”).
É quase intuitivo pensar que sabemos melhor a nosso respeito do que os outros. “Só eu sei, meu amigo, a vida que levo. Se você soubesse as dificuldades que enfrento, ah..., os problemas,...”. Ó... Montaigne força um pouco a barra. Nós certamente temos uma espécie de acesso direto aos nossos pensamentos e isso parece ser prerrogativa de nossa subjetividade, de nossa incurável e ensimesmada solidão existencial. Há, porém, grande inconveniente nisso. Esses nossos queridos pensamentos tramam historinhas, forjam motivos e nos inclinam a uma visão muito favorável a respeito de nós mesmos (e Montaigne sabe bem disso). Já os outros, tendo apenas nossas ações e palavras como base para seus juízos, dão a impressão de padecerem de uma deficiência cognitiva. Eles não conheceriam exatamente o autor das ações. Eles tão-somente conheceriam o autor pelas ações, ao passo que nós nos conheceríamos por dentro. Não sei se ajuda muito. Não, eu sei, ajuda – e muito. Ajuda muito, mas também atrapalha uma barbaridade. Talvez um tempero dos ingredientes, tempero que fica, claro, a nosso encargo. Ok. Tem o papo altamente interessante do Aristóteles na Magna Moralia sobre a importância vital dos outros, quer dizer, dos amigos, para o próprio autoconhecimento moral. Eu gosto desse papo. O negócio é não confiar muito em si mesmo, bem entendido não confiar muito no juízo que fazemos sobre nossas ações, sobre nosso modo de viver mesmo.
Eu falo por mim apenas, claro. A linguagem às vezes é pretensiosa, como se essa divagação tivesse alcance universal. Eu preciso ficar com um pé atrás sobretudo em relação a mim mesmo. Não sei como é contigo. E esse é um ponto antigo nesse blog. A maldita tendência de nos escusarmos tem de ser refreada. Os outros, especialmente quando são nossos amigos, veem menos, mas talvez consigam, livres da autocomiseração ou autoglorificação em que nos enterramos, ver melhor quem somos. Porra! Será? Será que o outro sabe melhor quem eu sou do que eu mesmo? Hum, difícil aceitar isso, assim, a seco. Os outros, penso aqui nos nossos amigos, também verão nossas ações a partir da parcialidade de suas paixões, das circunstâncias existenciais peculiares em que se encontram.
Quem sabe tenhamos de entender as palavras de Montaigne simplesmente como ótimas desculpas para nossas faltas e como excelente escudo contra as críticas que a nós são dirigidas. Quem sabe, quem sabe... Talvez Montaigne tenha dito a verdade. Eu acho que não, pelo menos não se não salpicarmos suas palavras. Esse é o lance, salpicar... Acho que sempre é esse o lance.
