07 novembro 2015

Eu não sou mais eu: o novo Aguinaldo

Eu tenho passado por profundas modificações nos últimos anos. E pra melhor (mas é claro!). Um dos sinais dessa impactante mudança é minha relativa indiferença em relação a discussões políticas, filosóficas, religiosas e urbanísticas. Confesso que ainda continuo, talvez lamentavelmente, sensível a algumas provocações. Mas quando me comparo com o Aguinaldo de 7 anos e meio atrás, nossa que mudança. É verdade que minha vontade de falar e escrever é instigada pelo que ouço e leio dos outros. 

Um parêntese, para entender esse texto, alguns precisarão antes ler esse post

Não obstante minhas falas e escritas serem em geral resultado da pauta que o mundo me oferece, vivo numa fase em que encontro regozijo em apenas dizer o que penso. Eu não quero mais convencer ninguém de nada.

Por exemplo, eu me incomodo com declarações como “devemos condenar o aborto de crianças”. Porra, o cara não consegue perceber que não existe isso. O que existe é aborto de feto, não de criança. Mas o sujeitinho que critica a novilingua da esquerda também quer criar uma, a novilingua da direita. Mas, vejam, estou apenas declarando, confessando, desabafando. Não estou a fim de discutir com o camaradinha dessa direita brasileira estúpida (- Mas não é só brasileira. - Ah, não é? Então tá, tudo bem). Eu encararia um evento público, seria mais engraçado. Mas hoje não mais por muito tempo. Vou querer sacanear, tirar um sarro. E não é isso que se espera em geral, ao menos na academia, de eventos, de debates. Outra merda é academia. E ter percebido isso me ajudou muito a ser um ser humano melhor. Logo, logo virá alguém – um patrulheiro da noite saindo lá do Game of Thrones - dizer que se é uma merda, por que não peço demissão. 



- Ok, então a minha demissão torna válidos os meus argumentos? - Não, não torna, seu nanico ridículo. Só mostra que você é incoerente. - Tá, mas você quer discutir a minha pessoa? Quer, bonequinha? Ok, amanhã. Hoje só peço que você defenda ou critique a academia (assim, mesmo considerando o pacote geral). - Não quero discutir nada contigo, vá tomar no cú.
(Cara mal-educado, meu. Putz e estava assinado Anônimo).


Volto ao ponto. Provavelmente, essa mutação se deva simplesmente ao tempo, à idade. Não penso que se trate de um momento de minha suposta autoconstituição, não. É uma acomodação interna dos elementos que formam minha natureza.  Sinto, em relação a certas coisas, que eu fui um protagonista, uma espécie de protagonista transcendental (toma conta de mim uma crença incompatibilista entre liberdade e necessidade natural). Quem sabe, porém, isso seja apenas uma ilusão (tenho recaídas compatibilistas). No fundo, isso não tem importância. O que considero importante é que as coisas estão seguindo um rumo que me agrada, o rumo que eu quero. Eu não estou mais a fim de pelear por ideias. Uma pessoa que me vê, de longe, pode pensar: puxa, mas você, você é bem briguento, gosta de discutir, se entusiasma com as discussões. E isso não está tão longe da verdade. Acontece que se ela me visse há alguns anos, diria que eu era um fanático. Pois olha, talvez eu fosse mesmo. Tinha crenças e confianças exacerbadas em relação ao poder curativo de argumentos, queria provas de tudo (como um vegetal). O que perdi foi o entusiasmo para discussões. Perdi um pouco da bravura, da fibra. Sou um homenzinho fraco e preguiçoso. Sinto-me, porém, forte quando penso nos ganhos de autoconhecimento que obtive. Hoje sei melhor quem eu sou. Cara, e eu gosto. E me olho no espelho e digo, cara, você é lindo, hahahhahha. 

Hoje, aceito o mundo como ele é, quero dizer, as pessoas como elas são. E olho à minha volta e percebo que essas mudanças que andam ocorrendo em mim também são sentidas por algumas pessoas. Cansaço, grau crescente de autoconhecimento, senso de humor e leveza florescente. Minha experiência, nesse caso, obviamente não é nada idiossincrática. 

Há pessoas que influenciam multidões. Eu não influencio ninguém mais. Penso aqui em influências no campo dos debates, das beligerâncias argumentativas. Contudo, eu não digo que não influencio as pessoas de nenhum modo. Acredito que de algum modo influencio – e inclusive tenho a ridícula pretensão de influenciar mesmo. Só que mudei de método (ó!). E essa mudança se operou de modo gradual, talvez silenciosamente. Ela não foi fruto de uma deliberação. 
O que quero mesmo é chamar a atenção das pessoas. Sim, sim, sim, eu quero ser amado. Mas agora não estou mais a fim de DEMONSTRAR, dou-me por satisfeito se apenas conseguir MOSTRAR (Puta que pariu, o papo está ficando chato). 



* * *

Tem muitas outras coisas, naturalmente, em jogo nisso tudo que disse: precisaria relacionar com o livro instigante de Allain de Botton, Desejo de status (o único dele que vale a pena ler, ou o único que tem profundidade). ‘”Desistir de pretensões é um alivio tão abençoado quanto ser recompensado por elas. Há uma estranha luz no coração quando a nulidade em uma determinada área é aceita de boa-fé. Como será agradável o dia em que vamos desistir de ser jovens ou esbeltos”.