30 outubro 2015

Amor, ouça, eu lhe peço...


Mas quem... quem vai, agora, enviar-lhe as rosas brancas a cada aniversário? Ah, o vaso há de ficar vazio, o pequeno sopro, o leve halo da minha vida, que uma vez por ano o envolvia, ele também há de desaparecer! Amor, ouça, eu lhe peço... é o primeiro e último pedido que lhe faço... em minha memória, a cada aniversário seu – é um dia em que as pessoas pensam em si mesmas – compre rosas e coloque no vaso. Faça isso amor, faça isso como outras pessoas mandam uma vez ao ano rezar missa para uma defunta querida. Não acredito mais em deus e não quero missas, acredito apenas em você, amo apenas você e só quero sobreviver em você..., ah, só uma vez por ano, silenciosamente como sempre vivi ao seu lado... eu lhe peço, faça isso meu amado... é meu primeiro e último pedido a você... eu lhe agradeço... eu o amo, eu o amo... adeus.

A passagem acima é de uma novela de Stefan Zweig, Carta de uma desconhecida. Quem a leu certamente vai se emocionar novamente com essas linhas. A esses leitores de Zweig, a minha saudação. Cada um de seu lado e, talvez, até em leituras feitas em voz alta de uma pessoa para outra, teve uma experiência vital. Talvez essa experiência vital tenha sido vivida simplesmente no refúgio da solidão, tão cara a quem lê com sede de sabedoria, aquela sabedoria que não encontramos nos livros (uma aparente contradição, pois se trata de leitura, de livros, mas quem lê Zweig sabe que não é de erudição livresca que se trata, mas de sentimento. E quem não amou jamais saberá ler esse autor sublime). E para os que ainda não leram, fica o meu desejo filantrópico de que leiam esse e tantos outros textos belíssimos de Zweig. Aos que nunca leram e nunca lerão, os meus mais profundos pêsames. Eu também choro por vocês. E rezo todo dia para que nunca mais ousem falar comigo sobre o amor.


Ah, sobre essa sabedoria a que me refiro, vale uma observação adicional.  Quando, no § 19 de Sobre o Fundamento da Moral, Schopenhauer se refere a Rousseau como o “profundo conhecedor do coração humano” ele atribui a sabedoria de Rousseau à fonte da qual nasce a água mais fresca e benfazeja, à vida. “Jean-Jacques Rousseau, o profundo conhecedor do coração humano, que bebeu sua sabedoria não dos livros, mas da vida”, diz Schopenhauer. E não me interessa se ele está certo em relação à sabedoria de Rousseau. Sinto que ele está certo em relação à sabedoria, e isso me basta. Então, prossigo: leituras como as de Zweig são uma forma de colmatar a sabedoria que haurimos da vida. É inócuo ler a Carta de uma desconhecida se você não foi subjugado pelo amor. Veja, eu não digo se você não amou, eu digo isso mesmo, subjugado pelo amor, amor sob sujeição. Se você não foi servo do amor, caia fora. Amar é fácil, ou apenas pensar que amamos (no fundo, dá na mesma). O que tenho em mente aqui é aquele amor que nem todos se permitem viver. O que tenho em mente aqui é aquele amor, com seus plenos poderes de arrebatamento, que a vida sonegou a alguns (ó, felizes infelizes!). Quem sabe alguns apenas não tiveram a sorte de viver esse tipo de amor, sentimento esse que é como uma benção proveniente dos céus. Se você amou assim, se você foi esmagado e dobrado pela força irresistível desse sentimento, você viveu e extraiu provavelmente alguma sabedoria dessa experiência.

O que a leitura de Zweig faz, além de nos proporcionar um gozo estético, é organizar um pouco mais isso tudo. Ao lermos Carta de uma desconhecida revivemos em nossa mente o amor que sentimos, que sentimos ontem, que sentimos hoje. Isso pode soar banal, mas acho deveras importante para uma vidinha menos vagabunda. Assim, revivendo o amor que sentimos ontem e hoje, tornamo-nos mais sábios. Depois do frêmito e das lágrimas que a leitura obrigatoriamente provoca (se você não sentir um arrepio existencial e não chorar, você precisa de internação urgente a fim de se desintoxicar da tua vidinha burocrática), bem, depois do efeito imediato da leitura, voltamos à realidade bruta com outros olhos, com outra compreensão sobre o viver, sobre o amar.

É o que eu senti. Um pouco do que eu senti.

Referêcias do trecho: Zweig, Stefan. Carta de uma desconhecida. In: Três novelas femininas. Tradução de Adriana Lisboa, Raquel Abi-Sâmara. 1ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014, p. 108.