Pra variar, eu estava de bobeira no Catuaí. E, de repente, na bobeira, me vi dentro da livraria Curitiba. E sem mais nem menos, me deparei com um livro intitulado Os dez mandamentos (+ um), de autoria do venerável senhor Luiz Felipe Pondé. Peguei o livro e fui tomar um cafezinho de leve. Dei uma olhada e achei legal o papo (como sabem sou fã número 1 do Pondé). Eu estava pensando no tal antirrealismo sobre deus do qual Warburton fala e que o Marcos Rodrigues tanto gosta. Bem, acabei comprando o livro do professor e articulista da Folha.
No dia seguinte, comecei a ler com mais atenção. Barbaridade! As coisas não fluíam tão bem como na mesa do café. Ok, ok. É interessante. Pondé é um cara que eu curto (claro que me refiro ao Pondé da Ilustrada, não o Pondé encolhido, tímido e medroso do Jornal da Cultura). As coisas começaram a me intrigar quando ele veio com o papo sobre a “coragem dos eleitos”. Coragem?
Me pergunto: por que Pondé não abre o jogo duma vez e diz que cada um interpreta do jeito que quiser, que não há nada de literal nessa conversa, que no fundo ele é um fideísta? Sim, vejam, por que ele não faz essa confissão? Em vez de posar de homem sem fé, por que ele não confessa que é apenas um homem sem religião? É claro que a brincadeira fica mais interessante se fizermos pose e não colocarmos todas as cartas sobre a mesa. O importante, amiguinhos, é termos algo para dizer, algo que realmente diga alguma coisa. E certamente Pondé diz algumas coisas. Na minha opinião, Pondé compõe um seleto grupo de seres humanos especiais, inspiradíssimos, dotados de poderes mágicos, sempre nos oferecendo algumas pérolas de sabedoria.
O que me incomoda é o papinho de deus para cá, deus pra lá. Ora bolas, deus é totalmente dispensável para o que ele tem a dizer.
Contradição do Pondé. (ah, antes, um aviso: eu cansei no primeiro mandamento, ok. Joguei dinheiro fora). Bem, vamos à contradição do Pondé: na página 20, ele diz que deus não pode ser representado pela linguagem. Depois, na mesma página (pasmem!), caindo na tentação do antropomorfismo, afirma que os maiores predicados de deus são a generosidade, a misericórdia e o esquecimento de si. Ora, ora, ora... Mas meu altivo, irreverente e sapientíssimo ídolo, por que você não vai às últimas consequências com a tese de que deus é um personagem (p. 25)?