Para La Rochefoucauld, “por mais raro que seja um verdadeiro amor, é ainda muito mais rara a verdadeira amizade”. Não sei. Estou inclinado a aceitar a raridade da verdadeira amizade, não a do verdadeiro amor. Acho que sempre que amamos nosso amor é verdadeiro, mas nem sempre que somos amigos nossa amizade é verdadeira. Bah, ficou meio oracular, não é?
É o seguinte: eu penso que no amor é sempre mais fácil viver com inteireza, entregar-se. Na amizade isso é mais difícil. Eu nem deveria estar falando da amizade, “A amizade”. Vocês sabem que no fundo estou falando de minhas amizades e de meus amores. Sempre me considerei mais contido na amizade do que no amor. Talvez seja essa uma das razões de haver aparentemente mais beleza moral na tal verdadeira amizade do que no verdadeiro amor. Ela é mais exigente, coloca nosso mundinho numa perspectiva mais apropriada, de mundinho mesmo, algo do qual não vale a pena se orgulhar muito. O amor parece um convite a um mergulho narcísico deveras foda. O amor é moralmente menos pedagógico que a amizade. Por certo, tudo depende de você estar atento. É preciso olhar para os lados. Isso só vale como tese geral, meramente especulativa, com um pinguinho de verdade biográfica.
A verdadeira amizade, assim, não se opõe à falsa amizade, mas à amizade pela metade. E as amizades em geral são desgraçadamente amizades pela metade. Em relação ao amor tendo a ver as coisas de modo mais otimista. O acerto no amor é mais fácil. O sentimento domina mais, são menos os ingredientes a serem administrados. O amor é simples, a amizade é complexa. (digo simples aqui em comparação com a amizade, claro). Ela é rara, o amor não. No amor o perdão é fácil (ou menos difícil); na amizade uma prática raríssima e penosa. Entendam que eu estou pensando que o perdão entra na parada com respeito a escorregadas morais. O perdão se refere a deslizes moralmente críticos. Outras faltas nossas, de pouca monta, podem ser desculpadas. Às vezes, pensamos que a falta de pouca monta é reveladora de graves defeitos de caráter. Apressadamente concluímos de um tropeço de incontinência a existência da ponta de um iceberg de intolerável qualidade ética. Claro, exageramos, durões na amizade e frouxos no amor.
O perdão... Ah, o perdão. Tá aí, acho que agora encontrei
o ponto. Perdão. É isso. Na amizade tendemos a um rigor moral excessivo. “Não
tem perdão!” A frase é mais verdadeira, e é mais consequente quem a afirma, se
ela for proferida no contexto de uma amizade. No amor, o coração é mais mole
(para o bem e para o mal). (Acho que não ajudaria muito Aristóteles aqui. Três tipos
de amizade e o papo de que amizade implica escolha e amor não. Deixo de lado. Continuar
uma relação amorosa implica escolha. O sentimento amoroso é que não implica. De
todo modo, Montaigne ajudaria mais; contudo, não estou a fim de convocar
autoridades para o meu ponto).
Talvez devêssemos ser menos severos em nossas amizades e um pouco mais intransigentes no amor. Talvez. Não, não. Sem essa de devemos isso, devemos aquilo. Nesses assuntos o dever jamais deveria entrar. Além do que, somos o que somos. As coisas são assim mesmo.
* * *
Precisaria arrumar isso que escrevi com aquele sentimento e consequente relação que envolve eros e philia. Aqui separei demais as coisas. De novo acho que o perdão poderia ligá-las. Nas relações em que eros e philia se fundem mais, o perdão é mais difícil. Vejam as lições que Jane Austen nos dá sobre amor e moral. É estranho que podemos ser levados a pensar que o perdão revela uma generosidade que sempre deveria estar disponível nos corações das pessoas moralmente mais elevadas. Contudo, essa generosidade se confunde com uma frouxidão, o que combina muito mal com certos princípios inegociáveis que devemos acalentar em nossas almas morais (somos molengas, temos parâmetros de coexistência muito elásticos). O que deveria contar como imperdoável? Numa amizade a lista teria mais itens? Parece que sim. O que pode assustar é perceber que a lista é a mesma tanto na amizade como no amor. Porém, no amor olhamos para outras listas, por exemplo, a lista do “aí, eu sou carente”. No topo dessa lista entram coisas como “não posso viver sem você”. E, por certo, o item “não posso viver sem você” tem de estar em alguma lista dentre as listas do amor. Longe de mim sugerir mudanças em listas tão naturais.
Nossa desgraça é grande, pois nunca sabemos bem quem é esse “você”, cuja ausência nos impediria de viver e , desgraça maior talvez, sabemos que podemos viver sem ele. Podemos, sim. Podemos viver uma vida ainda mais miserável.