29 setembro 2013

Uma amiga de quem jamais precisaria estar distante

Considero impossível, cara senhora, descrever o quanto me é difícil tolerar tua ausência e o constante desejo de estar contigo. Há muito tempo me habituei a pensar em ti como uma amiga de quem jamais precisaria estar distante por um período prolongado; tenho cultivado a ilusão de que somos destinados a passar nossas vidas em mútua intimidade e cordialidade. A idade e certa equanimidade de temperamento ameaçaram reduzir meu coração a um estado de grande indiferença por tudo, mas ele foi revitalizado por tua graciosa conversação e teu caráter vivaz. Que tua mente, perturbada pela ingrata situação em que te encontras e também por tua tendência natural, possa repousar na simpatia mais tranquila que encontra em mim.
[...]
Oh, querida amiga, temo que, nesse tormento tão resistente a qualquer remédio, ainda demores a alcançar um estado de tranquilidade e, pela natural elevação de teu caráter, em lugar de te colocares acima dele, tu o experimentes com a mais profunda sensibilidade. Só queria poder propiciar-te o conforto temporário que a presença de um amigo nunca deixa de representar ... Beijo tuas mãos com maior devoção possível.

(Carta de Hume para Madame de Boufflers, 3 de abril de 1766).

2 comentários:

Tiaraju disse...

Posso afirmar com bastante certeza que foi uma das coisas mais gentis e bonitas já lidas por mim. Lê-la é experimentar intensamente afetos alegres, que ao nos perpassarem se atualizam nos tornando mais potentes.

Gisele Gomédi disse...

Aguinaldo, pensei que após a publicação de “Já me acostumara tão bem a ser sempre dois ...” eu não iria me emocionar tanto com uma publicação sua. ´´E muito lindo! Não me canso de reler, reler, reler... Como não chorar diante de algo profundamente belo?