24 agosto 2013

Kant anarquista

Contaram-me a seguinte história. Kant teria sido capturado e tido o seu queridinho pescoço torcido. Sob a mira de uma pistola Ruger P89, um fanático da célula filosófica do terrorismo argumentativo exigiu que ele assinasse e proferisse em voz alta a seguinte declaração.


O principio universal do direito e o único direito inato (à liberdade) permitem sobejamente uma interpretação anarquista(*), ainda que apropriativa, da Doutrina do direito. Além disso, gostaria de confessar que fiquei sabendo que no Brasil um professorzinho defendeu isso num colóquio em Campinas, um colóquio justamente em minha homenagem.

Depois de devidamente assinado e divulgado o documento, Kant foi solto por seus malvados sequestradores. Soube-se que no mesmo dia ele cometeu suicídio, ferindo assim mortalmente o imperativo categórico - tal como ele explica no primeiro exemplo da II seção da Fundamentação (disseram que Kant surtou, o que fez com que sua máxima entrasse em contradição consigo mesma).

A história, preciso registrar, quem me contou foi um desconhecido. Nós falávamos sobre futebol e literatura. Ele me sacaneava com Mazembe, defendia três volantes e dizia insolentemente que Jane Austen era leitura de espíritos femininos e virginais (quase me retirei da mesa quando ele disse isso). E ainda tinha os et cetera e tal. Mas a conversa ia bem, pois rolava a boa sacanagem, risadas e ironiazinhas meia-boca. De repente, não sei por que cargas d’água o papo deslizou imperceptivelmente para a filosofia e ele disse que tinha algo bombástico para me contar e relatou a história acima. O cara jurou de joelhos que era verídica. Como ele já estava um pouco bêbado, o seu ajoelhar-se não lhe permitiu um movimento tão galhardo.

Revelo que senti um frio na espinha quando ouvi a referência ao tal professorzinho. Foi então que disse. Olha meu camarada, anote aí o que vou te dizer, pois é muito mais importante do que qualquer declaração de Kant. É o seguinte. Kant não tem importância, meu velho. Simplesmente não tem importância. Quem o forçou a assinar o infame documento violou com escárnio o princípio sagrado da não agressão, impediu Kant de ser senhor de si mesmo, submetendo coercitivamente o arbítrio do nanico de Königsberg ao arbítrio dele (dele, desse membro condenado do terceiro grau do mal). Uma barbaridade! As coisas são mais simples. Bastaria que alguns leitores de Kant, Platão, Aristóteles, Descartes e Pedro da Silva não fossem caçadores burocratas de passagens. Bastaria que pusessem no lixo as suas puídas joelheiras. Repito, com todo carinho, caçadores burocratas de passagens, pois vivem em busca desesperada por uma citação aqui e outra acolá que possa autenticar o que eles pensam, ou melhor, o que eles deixam de pensar. E ele: Bah, mas pelo que eu sei você adora fazer isso em artigos acadêmicos e em congressos de filosofia. Está pregando o faça o que digo não o que faço? Eu: Não, não (mas talvez sim). Em artigos acadêmicos e congressos, citações, exegeses, análises são cruciais. É o ritual, entende? Mas não falo aqui desse "universo paralelo", do qual eu gosto (às vezes muito, às vezes pouco, às vezes quase nada). Falo da vida real, que não segue nenhuma forma cerimonial, falo da filosofia que corre nas veias, percebe? Falo dessa vida aqui. Veja, aqui há mesas, copos, bebida, coração e alma abertos, sem gravata, sem lustrar os sapatos. Ele: Tá, mas vem cá, afinal, o que você acha? Três ou dois volantes? (Juremir – ainda preciso escrever sobre o Juremir e Porto Alegre).

(*) Que entendo assim.