Falando nisso, me vem à mente a ideia de que causamos mal aos outros mesmo sendo justos. É possível, com a simples comunicação de que fizemos determinada escolha para nossas vidas, causarmos no outro uma terrível e até incurável mágoa. O desgosto que provocamos é um mal que fazemos, mas não uma injustiça. Logo, há parafusos soltos aqui. Eu vou apertar: não fazer o mal deve ser substituído por algo mais exato. Algo como: não fazer uso da coerção contra a liberdade de ação de outra pessoa. Porque, no fundo, embora uma pessoa possa não ser injusta, ainda assim ela pode faz muito mal. Mas, para o ordenamento moral cósmico, as coisas vão bem se não atentamos contra a liberdade do outro.
Não pensem que eu ache a ideia do bom samaritano destituída de significado moral. Longe disso. Ele deveria mesmo ter sido bom e não simplesmente justo com aquele homem, espancado e deixado quase morto. O homem precisava de curativos, suas feridas precisavam de óleo e vinho. Não haveria, porém, injustiça alguma se o samaritano agisse como agiu o levita. Mas os seres humanos em geral, aqueles com quem cruzamos, são para nós apenas merecedores de respeito (aqui, entendido como um distanciamento).
São extraordinariamente poucos, se considerarmos os mais de 7 bilhões de seres humanos que vivem nesse amável planeta, aqueles que merecem nossa bondade. São os nossos amigos, os nossos amores, os nossos pais, os nossos irmãos, os nossos parentes. Quem mais? Talvez o colega, o vizinho, mais aí o círculo dos afetos vai ficando mais dilatado. E, na mesma proporção em que o círculo dos afetos fica mais dilatado, menor é o compromisso que temos com a pratica da bondade.
Mas quem pode desfrutar, em toda justiça, o supérfluo quando outros morrem por não ter o necessário? “A igualdade dos bens seria justa”, dizia Pascal. Sua desigualdade, em todo caso, não poderia absolutamente ser justa, pois condena uns à miséria ou à morte, enquanto outros acumulam riquezas sobre riquezas e prazeres sobre fastios (Pequeno Tratado das Grandes Virtudes).
Não, não Sr. Comte-Sponville, não me venha com esse papo, nem o Sr., nem os Peter Singers da vida. Ninguém é condenado à morte ou à miséria a partir da ideia de justiça que expus acima.
Quero falar mais da bondade. Há pessoas que olham no fundo dos nossos olhos, há pessoas que nos tocam, há pessoas em relação as quais temos o dever de cuidar, de sermos zelosos protetores de suas chagas físicas e anímicas. É, a meu ver, na deficiência dessa bondade que estão nossos maiores vícios, não em nossa indiferença para com a fome do sujeito "X" que mora em Uganda. Minha consciência pesa, hesita, rumina a bondade que deixo de fazer, a ligação que deixei de fazer, a amizade que não quis cultivar, o olho fundo e triste de alguém que me é caro, mas que não é a matéria excitadora mais forte diante de meu egoísmo (a linguagem mecânica é retórica).
Eu me aproximo um pouco do que Dwight Darrow expôs em seu livro Ética.
As capacidades para o agir moral e o pensar moralmente, bem como a autoridade das obrigações, estão baseadas em relacionamentos. [...]. Estabelecemos relacionamentos porque eles são essenciais para que se tenha uma vida significativa e próspera. Eles são essenciais para a nossa felicidade. Nossas conexões com as outras pessoas são os relacionamentos mais vulneráveis que temos, e nossos sentimentos e julgamentos sobre a qualidade de nossas vidas estão sob a dependência de mantermos esses relacionamentos.
Eu sou um homem mau por que acredito na parcialidade da bondade e na universalidade da justiça? Talvez, talvez. Há pessoas que eu acho que deveriam ser boas comigo (no fundo, acho que são praticamente as mesmas com as quais eu deveria ser bom). E dessas pessoas eu reclamaria sim, reclamaria suplicando seus zelosos cuidados. Mas, vejam, eu apenas reclamaria da falta de bondade e não da falta de justiça. Eu reclamaria da distorcida percepção de quais são os relacionamentos mais importantes. Mas será mesmo que eu reclamaria? Não, acho que não ... Acho que, melhor do que reclamar, é pular fora do lânguido círculo de afetos dos que nos devem bondade e a sonegam. Da mesma forma, teria de aceitar que algumas pessoas pulassem fora do meu círculo de afetos. O interessante é que podemos pular para fora e depois pular para dentro novamente. O que não é interessante, porém, é que não dá pra ficar fazendo isso por muitas vezes. Bah, já estou divagando.
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