Partamos desta constatação: nas relações humanas, a substituição de pessoas é fácil, difícil, ou impossível. Obtém-se assim três grupos de casos: ou todos podem aparecer num certo lugar, ou somente alguns, ou uma pessoa única. Essa distinção permite distinguir três esferas relacionais nas quais participa cada individuo: a esfera humanitária (por exemplo, devo socorrer uma pessoa em perigo, seja ela quem for), a esfera política (em certos aspectos, todos os meus concidadãos são intercambiáveis, ora, eles não o são com os estrangeiros) e a esfera pessoal, em que nenhuma substituição é possível: eu sou ligado a meu pai, a minha amante, a meu amigo, a meu filho, enquanto indivíduos insubstituíveis. É dessa última esfera, sem dúvida alguma, que depende o amor, como já sabia muito bem um dos seus primeiros grandes teóricos, Aristóteles: “o amor, que pretende ser, por assim dizer, uma afeição levada ao seu supremo grau, dirige-se apenas a um único ser” (Ética a Nicômaco, IX, 10, 5). Não que não seja possível amar várias pessoas ao mesmo tempo; mas o amor se caracteriza pela impossibilidade radical de qualquer substituição: se o ser amado é diferente, o amor também o é.
(Tzvetan Todorov. O jardim imperfeito, p. 110)*.
Com exceção da parte sobre as duas primeiras das três esferas, subscrevo com entusiasmo o que Todorov afirma. É verdade que estamos sempre a comparar nossos afetos, mas há neles algo irredutível à comparação. Eu disse “sempre”? Não, talvez estejamos apenas sempre propensos à comparação. Nisso há comensurabilidade dos objetos de afeto, da intensidade deles e também da profundidade deles (duas coisas bem distintas que geralmente alguns confundem). Mas se amamos mesmo alguém (penso aqui na teleia philia), amamos provavelmente por uma razão muito próxima a que Montaigne apresentou para a possível pergunta sobre por que ele amava La Boétie. “Se insistirem para que eu diga por que o amava, sinto que o não saberia expressar senão respondendo: porque era ele; porque era eu” (Ensaios I,28). Um núcleo residual da inevitável incomensurabilidade dos amores. E me parece claro que isso exclui eros e philia em vista (apenas) do prazer ou do útil. Porque virtualmente outras pessoas podem me proporcionar o mesmo prazer que qualquer pessoa me oferece (desde que não seja simplesmente o próprio prazer de coexistir com ela, prazer que ela me faculta, como uma dádiva celestial, de ser quem ela é). Mais fácil ainda é pensar isso com respeito à utilidade: troquemos a pessoa, fiquemos com o serviço.
* sigo ipsis litteris a tradutora Mary Amazonas Leites de Barros (São Paulo: Edusp, 2005).
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