12 maio 2013
Antes amar do que ser amado
Eu me pergunto: uma mãe ama mais o filho do que o filho ama a mãe? Uma mãe ama mais seus rebentos do que os pais amam seus filhos? Tendo a pensar que a resposta a essas perguntas é afirmativa. Isso não vale em todos os casos. Seria uma notória falsidade empírica afirmar que, se tomássemos em consideração todos os pais e todas as mães, não encontraríamos pais mais zelosos em seus cuidados amorosos do que as mães para com seus filhos. Também colide com a experiência a afirmação de que nunca se encontram casos em que mães amam menos os filhos do que os filhos amam as mães. Por certo, a resposta afirmativa acima não vale irrestritamente. Há mães que amam, sobretudo, a si mesmas e fazem desse amor de si a condição de todos os seus outros afetos - algo que ocorre em geral com os seres humanos. Acredito que minha ideia é válida em linhas gerais; ela não tem a pretensão de ser absoluta.
Aqui, é preciso deixar de lado os tolos protestos que alguns gostam de fazer: "não generalize, não generalize". Generalizo, sim. É desse modo que posso tentar entender as coisas. Em geral, as mães amam mais. E isso é notável. Aristóteles capturou muito bem esse fato ao dizer que as mães “parecem contentar-se em vê-los [os filhos] prosperar; e amam os seus filhos mesmo quando estes, por ignorância, não lhes dão nada do que se deve a uma mãe” (EN VIII 8). Eu conheci e conheço mulheres de tal jaez. Por mais que eu tente, nunca conseguirei exprimir em ações (pois é nela que as coisas têm de ser exprimidas) a gratidão que devo à minha mãe Teresinha, mas principalmente eu nunca conseguirei amá-la como ela me ama. É sempre maior o amor do criador pela criatura que o da criatura pelo criador.
Eu vi outras mães praticarem atos de generosidade que elas frequentemente sonegavam aos outros em suas relações cotidianas. Senti a doação sincera e quase sobre-humana de uma mãe quando ela percebeu que sua filha estava em perigo.
Ainda assim, é possível pensar que tudo isso não passa de egoísmo. Alguém poderia alegar que não é difícil amar os filhos, os amigos, aqueles que estão próximos, aqueles que fazem parte do círculo menor de nossos afetos. Difícil é amar o rosto que nunca antes vimos e que nos encara clamando auxílio. Difícil é amar um cão, um pobre e suplicante animal abandonado. Talvez essas ressalvas tenham alguma razão.
Eu, contudo, penso de modo diferente. O amor ao rosto desconhecido, ao animalzinho suplicante não me comove muito. O amor que me chama a atenção é aquele se manifesta por quem está dentro dos círculos menores de nossos afetos. Seja egoísmo ou não, isso não me interessa. O que me interessa é que aí, e não numa disposição amorosa humanitária ou cósmica, é que podemos apreender sobre a beleza moral da ideia do cuidado e da lealdade que dizem respeito às coisas mais valiosas dessa vida: o amor e a amizade.
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