Que filme interessante!
Alguém poderia questionar moralmente as motivações da decisão de Nader de ficar no seu país para cuidar do pai que sofre do Mal de Alzheimer.
A mulher quer se separar do marido, para viajar e levar a filha para o exterior, como planejado. O marido se opõe.
Provavelmente, no lugar do juiz, eu apoiaria o dever para com o velho genitor contra o sonho (quem sabe, frívolo) de um futuro diferente. Esta mulher quer o quê? Enfiar o sogro num asilo só para respirar o ar de Paris ou Nova York?
Agora, se, em vez de juiz, eu fosse terapeuta do casal, talvez não me deixasse enternecer pela "nobre" decisão do marido. Afinal, qual melhor desculpa do que um pai doente para justificar nossas desistências? É frequente: a gente "se sacrifica" em nome de obrigações sagradas e tradicionais, e, de fato, esses compromissos nos servem para renegar nossos desejos.
(Contardo Calligaris. “A separação”. FSP, Ilustrada, 16 de fevereiro de 2012)
Já que alguém poderia dizer “ah, mas não é só com respeito ao personagem masculino que ele apresenta esse tipo de dúvida, blábláblá”, que se registre então que Calligaris levanta suspeitas acerca das motivações não só de Nader como também de Simim.
Mas eu sempre estou interessado apenas num pedaço da história. Você não percebeu?
Considero altamente intrigante a ideia de que haveria algo de censurável no fato de alguém renegar seus desejos. Deveras curioso, embora provavelmente muitas pessoas se inclinem a pensar assim. “Oh, que coisa lamentável você ter de fazer sacrifícios e renegar seus desejos!” Mas não é isso que se espera de pessoas capazes de agirem moralmente? É obvio que se Nader fosse, como muitos, um hedonista bestial, a doença do pai o afetaria pouco. Dane-se meu pai. O velho vai morrer mesmo. Talvez até se possa pensar que já esteja morto, isto é, que apenas tenha restado dele um corpo praticamente reduzido à sua natureza vegetativa. Agora, se você se lembrar de Nader dando banho no pai e chorando, talvez você comece a pensar que todas as dúvidas que podem ser levantadas sobre o comportamento específico de Nader não são suficientes para retirar o magnetismo moral da imagem. Se devemos ser leais (lealdade moral), então podemos ser leais. Não precisamos de nenhuma gota de psicanálise para duvidar se Nader foi ou não moral (é uma dúvida trivial). E precisamos de poucas doses de discernimento moral para entender que Nader tomou a decisão certa.
Nem vou discutir a ideia de desculpa, pois me parece que ela meramente não cabe numa avaliação serena do personagem Nader. Não o vejo procurando desculpa para nada (quanto a ficar cuidando do pai). Eu interpreto que ele acha simplesmente que essa é a ação moralmente correta.
© Aguinaldo Pavão – Londrina – PR - 2012

2 comentários:
Nas horas decisivas é o senso moral que nos sufoca e enforca a imensa capacidade humana de ser feliz.
Não sei se entendi bem o teu ponto. Num certo sentido, a moralidade nos sufoca sim, ou seja, nós sufocamos a nós mesmos. E por certo também sufocamos nossas inclinações conducentes à felicidade. Se felicidade for entendida como satisfação dos desejos, eu diria: “ótimo; ainda bem que somos morais e capazes de produzir tal sufocação”. Assumindo essa noção de passividade subjetiva da felicidade, caberia a afirmação: o importante não é ser feliz, o importante é ser digno da felicidade. Mas poderíamos conceder mais aos antigos e pensar que não poderíamos ser felizes sem sermos morais. Infeliz, assim eu diria, quem se livrou de todos os sufocamentos.
Obrigado pelo comentário.
Postar um comentário