21 Janeiro 2012

Jane Austen

É notável a centralidade da noção de valor moral nos romances de Austen (penso em três deles, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade e Persuasão - prometo que aumentarei a lista). Já abordei aqui esse tema. O interessante é que o valor moral tem uma importância equivalente seja da parte da mulher que aquilata a qualidade do caráter do homem que lhe interessa, seja do homem que aprecia uma mulher (que a aprecia, sobretudo, com olhos morais). Claro que isso vale para os personagens centrais (eventualmente para os secundários). Elizabeth e Darcy, Marianne e Brandon e Anne e Wentworth admiram-se (ou acabam admirando-se) e se querem por razões proeminentemente morais. Há, porém, uma diferença que parece ter sido bem capturada por Allan Bloom entre os heróis masculinos e femininos em Jane Austen. “Os personagens virtuosos de Austen, especialmente os masculinos, não são os mais agradáveis ou sociáveis dos seres. O sedutor Wickham e o ingênuo Bingley são sociáveis demais, o que significa que não devem ser levados muito a sério.  A verdadeira virtude, em contraposição à virtude social acomodada do homem moderno, está numa certa tensão com a convivência” (Amor e Amizade, p. 177).
Lady Russell nada podia fazer senão ouvir, imperturbável, e desejar-lhes felicidades, mas por dentro, seu coração festejou com rancoroso prazer, com grato desdém, o fato de que o homem [Wentworth] que aos 23 anos parecera de certa forma compreender o valor de uma Anne Elliot se deixasse, oito anos depois, encantar por uma Louisa Musgrove”. (Persuasão, cap. 13). 
Belíssimo, belíssimo! E isso que ela, Lady Russell, cometera um erro grave no aconselhamento que dera para Anne. Bom, acaba errando de novo. Mas a bússola aqui é boa.
Essa passagem de Persuasão (e tantas outras) chama atenção também para a necessidade de qualificarmos melhor essa história de admiração moral. Não se trata simplesmente de achar que a pessoa amada é moralmente boa. Isso é muito pouco. O valor moral não pode ser entendido em termos estritamente kantianos. Acho que está mais próximo de Aristóteles. É preciso uma admiração espiritual, intelectual [a escolher ou a imaginar uma palavra melhor que passe a ideia mais abrangente de "valor moral"].

11 comentários:

Iara disse...

Que bom que voltou a falar de Jane Austen. Mas olha professor, não estaria sendo o senhor um pouco descomedido nessa ideia de admiração intelectual? Em Persuasão, Anne teria que preferir Benwick a Wentworth. Benwick não é mais interessante em termos intelectuais? Ser moralmente bom é muito pouco mas também é muito pouco ser intelectualmente bom. Não vemos as mesmas coisas.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Iara.
Realmente, a expressão admiração intelectual talvez não seja boa. Também sugeri admiração espiritual. Mas discordo de você. Primeiro por que se a ideia de intelectualmente bom envolver, como sugiro, qualidades morais, de modo algum poderá ser compreendida como “muito pouco”. A ideia que eu quero passar é a seguinte: nos três romances citados, mas podemos ficar só com Persuasão, a heroína admira o caráter e o intelecto, ou o caráter e o espírito, ou apenas a alma no sentido de índole ética, intelectual e sentimental. Digamos que admiração intelectual (que seria um ingrediente crucial no valor moral da pessoa) não seja uma condição suficiente, mas certamente teria de ser reconhecida como uma condição necessária em Persuasão (e aplico isso também a Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade). Vamos ao romance um pouco. Por que Anne apenas simpatiza com Benwick? Ora, no fundo Benwick é uma espécie de almofadinha intelectual. Todo molenga, melancólico demais, sem a vibração existencial que a alma de Anne requer como atributo de atração. No romance várias vezes se fala em determinação, coração caloroso, mente perspicaz (nesse caso diria que Benwick é o erudito, não o homem espiritual e intelectualmente superior), franqueza, coragem e, note, certa intolerância. Sim, intolerância, e isso se relaciona com o teu ponto. Jane Austen faz Anne explicar por que não prefere o Sr. Elliot. Lembra? Ele era afável demais, “dava-se bem demais com as pessoas”, “tolerava tudo bem, demais”. Bloom acertou em cheio. Pode-se dizer que Sr. Elliot também é intelectualmente interessante, mas ela o reprova moralmente, não apenas por causa da sua tolerância mas também e principalmente, sim é verdade, pela não percepção de que ele seria um alma franca (ela pensa: ele não tem explosão de sentimentos, não tem “arrebatamento de indignação ou prazer perante o mal ou o bem existente nos outros”). Por isso que essas palavras, “admiração espiritual”, “admiração intelectual” e talvez até “valor moral”) comportem alguma inexatidão. Quando pensei em valor moral, pensei num sentido bem aristocrático. Ou seja, nem todos têm o mesmo valor moral (e isso que desequilibra na hora das escolhas amorosas). Por isso que Kant não ajudaria muito aqui. Aristóteles parece que sim.

Iara disse...

Eu queria dizer que admiração intelectual é insuficiente me expressei mal, não é que é muito pouco. Há atração estética, física, ou “admiração” estética. Não tem candidato feio, entende. Isso que acho que faltou na sua análise.

Aguinaldo Pavão disse...

Iara, não te parece trivialmente verdadeiro que se não há certa admiração estética sequer se coloca a possibilidade de ponderação de alternativas? Insisto: não é isso que desequilibra. Mas é claro que os feios não têm vez, o que é muito justo!

Iara disse...

justo?

Aguinaldo Pavão disse...

Ora, ora, Iara, cum grano salis! Cum grano salis!

Leandro Resek disse...

Mas a vida real é bem diferente. Se você olhar as coisas como elas são vai ver que os critérios são outros as motivações são outras. É coisa de romance. Sinceramente bem inocente.

Iara disse...

Ah, mas você leu Jane Austen? Acho que não, né?

Aguinaldo Pavão disse...

Com que rapidez surgem as razões para aprovar o que gostamos.
(Jane Austen, Persuasão).

Que maravilha! A “vida real”, hein? Sei ...
Bueno, Jane Austen não desconsidera a existência (óbvia) de outras motivações, de outros critérios. Nos três romances citados, apenas as personagens centrais - ou especialmente as centrais -, como seria de se esperar, representam os bons critérios de decisão. A maioria escolhe mal mesmo. Assim caminha a humanidade. Há um componente claramente normativo em Austen, que pensei ter deixado claro no post. Logo, se há um componente normativo nos romances da escritora inglesa, não cabe lermos seus romances como meras descrições da “vida real”. Ela não diz apenas como as pessoas escolhem, mas como deveriam escolher, quais seriam as melhores escolhas. Advirta-se, ainda, que a normatividade não é a normatividade do mundo da lua. Trata-se de normatividade viável. Observe as personagens secundárias e suas inconseqüentes escolhas! Mas que a “vida real” é bem diferente do modo de escolher de uma Marianne, por exemplo, é verdade, mas uma verdade banal, que não atesta nenhuma inocência de Jane Austen.
Acredito que valha a pena termos receio da rapidez com que surgem em nós razões para aprovar o que gostamos; para não sermos vítimas tão dóceis do auto-engano. Oh, mulher inocente essa Jane Austen!

Leandro Resek disse...

Deixa de ser ridiculo cara.

Aguinaldo Pavão disse...

O amor aos argumentos é algo comovente.
Deixar de ser ridículo? Ok, vou tentar. Mas você sabe que vai ser difícil, não é?