09 Janeiro 2012

Eu te amo para começar a amar-te

Dia desses, na Livraria Curitiba, que aqui em Londrina deveria ter outro nome, e cujas prateleiras de filosofia deveriam ser menos ultrajantes aos amantes do ofício de Sócrates, estava eu a procurar um livro, ou melhor, dois, pois era só um título, mas dois exemplares. Deparei-me com o livro Cem Sonetos de Amor, de Pablo Neruda. Fiquei curioso, não exatamente pelo título, mas pelo fato de frequentemente ler na Internet poemas atribuídos ao poeta chileno. Resolvi comprar e verificar se os próprios versos de Neruda não eram melhores do que aqueles que lia nos facebooks da vida. Ainda não cheguei a uma conclusão sobre isso. Encontrei, porém, um soneto belíssimo (há vários). Um soneto que me fez pensar não em “dois modos de vida”, mas em dois modos de amar. Um, o do Banquete, outro o dos livros 8 e 9 da Ética a Nicômaco - o segundo, o amor mais profundo (pois muito do que Aristóteles diz nos livros 8 e 9 não vale apenas para “amigos”, mas também para amantes).

Soneto XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

* O "eu te amo para começar a" é O Banquete. O "amar-te" é 8 e 9 da Ética a Nicômaco.

5 comentários:

Amanda Luiza 2º ano disse...

Lindo o soneto, mas a relação que você fez com Platao e Aristóteles ficou dificil de entender.

Aguinaldo Pavão disse...

Olha, estou um pouco com preguiça de explicar o que quis dizer. Em resumo, o ponto é o seguinte. Amor-eros pode ser atribuído às teses do Banquete. Esse amor implica falta. Amor-philia pode ser atribuído (ou capturado nos) aos ensaios sobre a amizade de Aristóteles (não implica falta). A amor-philia supera o amor-eros, mas sem negá-lo completamente. Diria que o amor-eros é subsumido no amor-philia (algo parecido foi dito também por Comte-Sponville em O Amor). É preciso também ler esses textos de modo não burocrático ou religioso. Acrescentaria ainda que se você jogasse umas pitadas de sal e imaginação funcionaria melhor do que uma rigorosa e evangélica exegese dos textos. Ademais, há fontes, páginas, versículos, parágrafos que geralmente não cito no blog. Até porque Platão, Aristóteles, ou qualquer outro autor não tem importância quando queremos entender as coisas. O que tem importância é nosso pensamento, nossa imaginação filosófica e, obviamente, o objeto. Claro que precisamos render homenagem aos nossos inspiradores, mas isso é apenas um blog, não um Site de filosofia. Sei que você sabe disso. Só estou sublinhando. E eu não sou nada sério, embora sisudo. Portanto, não me leve a sério. Vou confessar uma coisa: gosto de deixar, aqui, algumas coisas no ar (já deve ter percebido). Muito obrigado pelo interesse. De todo modo, sita-se à vontade para questionar minhas declarações – eu não terei nenhuma desculpa para evadir-me. Bah, até que não fui tão preguiçoso.

Amanda Luiza disse...

Obrigada. Entendi o vosso modo de pensar. Preciso ler, ler muito. Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Estamos em janeiro! Leia ou releia Stendhal, Jane Austen e Flaubert. A segunda dica diz muito sobre os livros 8 e 9 da EN.

Amanda Luiza disse...

Anotado. Mas o meu janeiro já está com cara de março. Obrigada.