Contardo Calligaris não me agrada sempre. Até diria que, em geral, não me agrada. Mas, às vezes, ele encosta de leve o dedo na ferida. Ontem (24/03/2001) ele escreveu um texto intitulado “O prazer e a culpa”. Abaixo segue o texto na integra com algumas observações minhas.
O prazer e a culpa
Contardo Calligaris
ADMIREI A reação dos japoneses diante do desastre -terremoto, tsunami, contaminação nuclear. Nas declarações oficiais e nas palavras das vítimas, a catástrofe é apenas um acidente: pode haver responsáveis por falhas na prevenção, na segurança ou nos socorros, mas a catástrofe em si não tem sentido algum. Será que nós, ocidentais, seríamos capazes da mesma atitude? Não sei.
Também não sei. Nem sei se os japoneses dispensam tão facilmente assim a metafísica plebéia.
A peste assolou repetidamente a Europa do século 14 ao 18. A primeira grande epidemia, de 1347 a 1352, matou um quarto da população europeia. Para que o horror não induzisse ninguém a pensar que o universo era sem sentido, duas reações populares: 1) perseguir judeus e bruxas, supostamente responsáveis pelo contágio, 2) juntar-se aos flagelantes, penitentes que erravam pelo continente se fustigando até o sangue.
Para o flagelante, a peste era um castigo pelos pecados do mundo; portanto, punir-se por eles talvez fosse o jeito de tornar a peste desnecessária.
Naqueles quatro séculos, a Europa se cobriu de igrejas que eram construídas como oferendas para que a epidemia se acalmasse; nelas, homens e mulheres faziam promessas, pedindo para serem poupados.
Ainda hoje, na calamidade e no medo, a promessa que acompanha o pedido feito a Deus ou aos santos sempre propõe uma renúncia: o pedinte se engaja a se privar de algo, do sexo ao chocolate. Funciona assim: 1) meu prazer e meu gozo são sempre culpados, 2) portanto, qualquer mal que me assole se explica como punição de minhas culpas, 3) a renúncia aos meus prazeres pode me redimir e estancar a punição.
Hesito em concordar com Calligaris. Mas a hipótese me parece boa.
Como chegamos a fazer esse estranho uso dos prazeres, ou melhor, da renúncia aos nossos prazeres? Três respostas, não excludentes (e insuficientes).
1) Bem ou mal, educar implica conter, impor frustrações e renúncias. Com isso, a aprovação dos educadores sempre parece proporcional à aceitação das renúncias pelos educandos. Ou seja, os jovens podem ser levados a pensar que é só frustrando seus próprios desejos que eles ganham o amor dos adultos.
Se pensam em ganhar o amor dos adultos assim, eu não sei. Não me lembro de tentar agradar os adultos quando, jovem, frustrava meus desejos. Achava, e continuo achando, que há desejos que simplesmente precisam ser frustrados. Agora, há de fato certo anti-hedonismo insano em algumas religiões.
(Não queria mesmo agradar os adutltos? Tudo bem, tudo bem: às vezes queria agradar sim).
2) No fim do primeiro milênio, cada vila europeia vivia no medo de bandos errantes. Quando eles se aproximavam, o povo se reunia na igrejinha e rezava. Isso não impedia nem saques nem estupros. O que pensar quando os bandidos iam embora? Deus não nos protege porque não existe? Deus existe, mas não dá a menor para a gente? Devia triunfar a versão que conciliava o desastre com a existência de Deus: o próprio Deus mandou os bandidos para nos punir de nossos pecados.
Mas a versão conciliatória está longe de responder a Epicuro. Deus é impotente: não consegue evitar o mal, embora queira (é bondoso), ou Deus é mau: não quer evitar o mal, embora possa (é onipotente).
3) Talvez seja menos angustiante viver num mundo que faz sentido do que num mundo que não teria sentido algum. Por exemplo, como é que você aguentaria o pensamento da morte futura sem o conforto da ideia de que ela está incluída numa ordem cósmica ou num plano divino?
Eu agüento numa boa.
Infelizmente, esse conforto tem um custo alto, pois o jeito mais fácil de garantir a existência de um sentido do mundo consiste em me atribuir a culpa por todos os males. Ou seja, minha culpa e meu esforço para me redimir "provam" que existe uma ordem (justamente, a que eu ofendia quando me entregava a meus prazeres).
Corolário: se meus prazeres culpados são a causa dos males, não preciso responder "adequadamente" às calamidades, bastará modificar minha conduta de modo que minhas ofensas sejam perdoadas.
Ok, mas seria apenas o jeito mais fácil.
Além de dar sentido ao meu mundo, a culpa me oferece a ilusão de agir de maneira eficaz: como o flagelante, posso esperar que minha renúncia ao prazer suspenda a punição. De repente, doenças e catástrofes talvez parem diante de minha conduta meritória. Em vez (ou além) de procurar as condições de prevenir um terremoto ou de debelar um câncer resistente, rezarei noite e dia e me fustigarei em penitência. Se, de qualquer forma, o terremoto vier ou o câncer triunfar, será porque não me açoitei o suficiente.
Pois bem, não acredito que, em nossa cultura, esse bizarro uso dos prazeres e da culpa tenha mudado substancialmente nos últimos sete séculos. Continuamos fundamentalmente inimigos do nosso prazer.
Ok, ok. Mas ainda assim eu quero um pouco de culpa e certa inimizade com alguns prazeres. O problema não pode ser a existência da culpa e a inimizade com certos prazeres. Posso imaginar um psicopata que não sente culpa e é ardoroso amigo de todos seus prazeres. Mas isso ninguém pode coerentemente defender (pelo menos não de um ponto de vista moral).
Prova disso: há, hoje como no século 14, bandos errantes que denunciam nossos tempos "hedonistas" e nossa voracidade por prazeres e gozos. São os flagelantes verbais: criticam o prazer para fomentar a culpa. É o jeito (custoso) que eles acharam para dar sentido ao mundo.
Ok. Há carolas estúpidos. Há quem pense que é moralmente errado um homem fazer sexo com outro homem, ou, pior, fazer sexo por prazer apenas. Sim, há flagelantes verbais. Mas rejeitar o hedonismo não significa rejeitar os prazeres pura e simplesmente.
CALLIGARIS, Contardo. O prazer e a culpa. Folha de São Paulo. Ilustrada, 24 de março de 2011.
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2 comentários:
Olá Aguinaldo
Bem, quanto a relação dos prazeres com as religiões achei que ele exagerou um pouco.
O que merece um comentário rápido são duas alusões que ocorrem nesse seu post aos dois melhores argumentos contra a existência de Deus existentes, que é a existência do mal no mundo, que já é um argumento velho, e o outro que brota do seu comentário de que pode suportar a falta de sentido do mundo. Se as religiões tiverem a função de explicar o mundo obviamente devem perder espaço para a ciência; a função delas deve ser outra. Diria, seguindo Luc Ferry, que são soteriológicas. Mas se é possível não nos desesperarmos diante da falta de sentido da morte e do sofrimento, me parece que as religiões são completamente ociosas... Confesso que alguém sincero intelectualmente (como eu pretendo ser, mesmo sendo dificil as vezes) e com tendencias religiosas (como eu) encontra dificuldades diante desses argumentos.
Alison
Pois eu acho que relacionando prazeres com as religiões, ele ainda ficou muito aquém!
A idéia de que há culpa em tudo, pregada desde o primitivismo pelos líderes religiosos, criou no homem preconceitos tantos, que passamos a nos enxergar como monstros terríveis, destinados a sucumbir no inferno por qualquer motivo. A idéia de culpa e punição pelos prazeres foi e ainda é o grande foco das religiões.
Se observarmos quanto tempo os pregadores nos cultos religiosos ocupam-se de Deus e quanto ocupam-se do diabo (independente do nome/forma que cada crença lhe dá), veremos que a religião nunca cumpriu seu papel de aproximar o homem do seu criador, mas sim de fazê-lo temer não apenas a Deus – com suas milhares de diferentes maneiras de castigar a humanidade –, mas sobretudo de temer a si mesmo, nas milhares de diferentes maneiras de desobedecer a tantas regras impostas culturalmente e que foram deturpadas para ganhar sentido maior, ocupando nessas religiões mais espaço do que deveriam.
Perdemos tanto tempo tentando nos desviar do mal, que esquecemos de fazer o bem. Perdemos tanto tempo buscando os responsáveis pelas tragédias, que esquecemos de reconstruir o que elas destróem. Perdemos tanto tempo nos questionando sobre o preço dos prazeres que sentimos, que vivemos como se estivéssemos num imenso jardim, porém buscando sempre os espinhos, e não as rosas.
Enquanto não nos despreocuparmos do inferno, não vislumbraremos o paraíso!
EmmyLibra
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