Ai, eu sou relativista. Ui.
Não sei qual a razão, mas nunca consegui levar muito a sério os camaradinhas que professam o relativismo moral. Não sei se é preguiça de discutir com eles, ou se simplesmente eles são também os destinatários das sábias palavras de Jesus, o Cristo: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Mas, me informam, há sofisticados argumentos em defesa do relativismo moral. Eu, é claro, acredito piedosamente na natureza absoluta dos princípios morais. Pensemos no direito à propriedade. Convencional, convencional, convencional, eles gritam. Como? Quer dizer que somente a força dá suporte a esse direito? Vejam, pulo abruptamente do convencional para a força bruta, pois detecto claramente que as coisas não poderão ser resolvidas pelo nosso charmoso convencionalista relativista de outro modo. Convenção significa que há regras sociais, sejam escritas ou não, que conferem apoio a reclames jurídicos (jurídico aqui no sentido bem simplesinho de reclamar algo a que se acredita ter direito). Se não houvesse convenção social a servir de base ao direito à propriedade, fiquemos nesse exemplo, pfui, baubau. Mas que baarbaridde chê! (Aviso aos defensores da pena de morte contra blasfêmia: não há nada de moralmente errado nisso, fiquem tranqüilos. Vocês apenas estão a defender as convenções de dois ou três países mulçumanos). Robinson Crusoe teria de entrar em acordo com Sexta-Feira sobre o que ele tinha feito sozinho na ilha? Que convenção havia? Nosso instigante, irreverente e genial relativista poderia dizer: não havia convenção nenhuma, as coisas tiveram de ser resolvidas no tapa, ou foi necessário admitir tacitamente que em última instância as coisas poderiam assim ser resolvidas. Força. Vejam bem, força, violência. E violência originária. Não violência contra violência. Robinson Crusoé não pode moralmente reivindicar que Sexta-Feira não se aproprie de seus cereais, diligentemente cultivados por Crusoé. Se Robinson Crusoe gritasse: isso é um roubo! Devolva meus cereais! Sexta-Feira diria: vem pegar, vem, vamos ver se consegue. E ao ver Robinson Crusoe se aproximar, Sexta-Feira dár-lhe-ia um murro e o deixaria desfalecido no chão. Haveria algo moralmente errado nisso? É relativo, é relativo, é convencional, e tal, e blábláblá. Daniel Defoe conta a mesma historinha nossa. Bah, roubaram meu carro. Felizmente há uma convenção para isso. Não, não é que eu tenha direito natural à propriedade. É que há leis estabelecidas pelo Leviatã que me protegem. Oh, louvado seja o Leviatã e todos os seus seguidores! Não há nada, nadinha, de direito natural. Ora, direito natural, conversa de bonecas metafísicas. E o Leviatã pode fazer o que quiser? Claro que pode. Agora, quer dizer que não posso introduzir o querido advérbio legitimamente? Não, não. Se esse legitimamente quiser significar moralmente, não pode. Para com isso! Vá estudar matemática se não quer ser relativista (hoje é dia dos itálicos). Só não queira me roubar, você não tem esse direito, você só tem, em tese, a força, mas não o direito. Engraçado, porque justamente a base de sustentação do querido direito do relativista é a força. Mas ele reclama da força do assaltante. Será isso coerente? Talvez, talvez ele diga. Olha, eu gosto mais da robusta força do Leviatã porque ela atende aos meus interesses. O que poderia servir para o assaltante proclamar: e eu gosto mais da força dos meus braços e do meu 38. E gosto não se discute (quer dizer, os dois não discutem, o relativista, que é filósofo por 2 minutos, e o ladrão, um pensador agreste). Pois o relativista conseqüente tem de negar a possibilidade de crítica a qualquer ponto de vista moral, ou a qualquer ponto de vista sobre a melhor ação (para ele, no fundo, todas moralmente neutras). Se admitir discussão, admitirá inconsistentemente que é possível alguma arbitragem dessa discussão. Mas a arbitragem não poderá, ela mesma, ser relativa. Já os fundamentalistas da moral desprezam essa conversa de força, violência, ou gosto, ou diversidade cultural. Eles discutem tudo e em tudo procuram por princípios universais.
A educação como mercadoria
20 horas atrás

11 comentários:
Charles Feldhaus comentou seu link.
Charles escreveu: "Caro Aguinaldo nunca fui e nunca serei um relativista moral, geralmente tenho me dedicado a autores universalista s(Kant e Habermas) principalmente; contudo, os relativistas tem pontos fortes a seu favor, que quem quer defender uma posição universalista precisa atarcar; primeiramente, o desacordo fora e dentro da filosofia acerca do que consiste o critério do certo e do errado; dentro da ética de princípios temos utilitarismo x kantismo, como princípais correntes e se pode dizer são incompatíveis apesar de Richard Hare acreditar ser possível defender um utilitarismo kantiano; além disso, atualmente mesmo filósofos universalistas como Habermas tem cedido algum terreno ao contextualista (que se aproxima do relativista, embora ainda diferente porque acredita que ao menos no contexto o valor tem força de levar a ação, ao passo que o relativista diria que uma afirmação moral é talvez uma mera expressão de sentimentos de quem os profere, um tipo de emotivismo moral). O desacordo não se restringe apenas ao crítério mas também ao faculdade envolvida na avaliação moral: intuição (intuicionismo), razão (kantismo), sensibilidade (utilitarismo, emotivismo); também acredito que precisa-se tentar entender em que sentido estamos falando de relativismo (radical ou mais próximo ao que denominei de contextualismo); se for o radical, de fato implica que valores são meros flatus voices; o que por sua vez leva a questões metaéticas nas quais o relativista também procura se apoiar, bem, correto etc são definíveis; se não forem, isso implica o que? se for um relativismo mais ameno, mais contextual, talvez se possa pensar em valores relativos a uma cultura, o que não excluiria essa força de obrigação que entendi que pretendes manter; o que desse modo aproximaria relativismo do comunitarismo e da ética de virtudes."
Charles. Acho q vc coloca (e a Andrea tbm fez isso), de modo muito feliz, uma pauta para a discussão técnica sobre o relativismo. Eu apenas quis chamar a atenção, forçando o verbo e fazendo alguns gracejos retóricos, para o contraste entre a crença na universalidade do direito natural à autopropriedade (poderia ser outro ex) e qqr tese que apregoa o relativismo. Um relativista na moral, como entendo, defenderá que nenhum princípio moral é superior ao outro. Portanto, um relativista dirá que o direito natural à autopropriedade não existe (moralmente), mas que apenas, talvez por uma feliz conjugação de circunstancias históricas, algumas culturas são beneficiadas com prerrogativas individualistas. Nem sei se ele poderá, coerentemente, dizer “feliz”, pois precisaria de algum critério. Veja, o meu ponto é bem simples: como poderia ser razoável alegar que tudo é moralmente permitido ou tudo é moralmente equivalente? Acho que não precisamos de nenhum Kant aqui. Eu não preciso. Preciso apenas reconhecer que tentativas de ponderação entre a tese relativista e a tese universalista podem ser feitas mediante a modesta comparação das conseqüências morais que o relativista tem de assumir. Digo “conseqüências morais”, pois o meu ponto consiste em questionar, por exemplo, o que o relativista tem de abraçar moralmente quando assume que não há boas razões para se considerar moralmente superior, por exemplo, o princípio de não matar inocentes em comparação ao principio de matar às vezes inocentes. Se o relativista gracejar dizendo: não assumo nenhuma conseqüência moral, eu me daria por satisfeito. Ele não provocaria filosoficamente, a não ser se eu tivesse de fingir que a filosofia acadêmica é sempre séria.
Andrea Faggion comentou seu link.
Andrea escreveu: "Aguinaldo, eu acho que o problema é que a moral kantiana não pressupõe apenas que sentimentos sejam incorporados em máximas, admitindo que essas bem poderiam ser o mero teatro de uma mente já determinada por impulsos sensíveis (como querem alguns pesquisadores empíricos, diga-se de passagem, e como poderia querer, talvez, um Hume mais refinado e contemporâneo). A moral kantiana precisa que seja ao menos possível uma determinação pura da vontade (como se vc não soubesse!), mesmo que nenhuma vontade concreta jamais tenha sido determinada de fato pela razão pura. Isso significa que quando vc concede que sentimentos sejam condições necessárias da determinação moral, vc está contando entre os sentimentos o respeito, que seria um caso exótico, sui generis: o efeito de uma causa noumenal. Veja a encrenca que se arranja aqui! Mas, tudo bem, até aqui, eu ainda acho que dê para salvar Kant, cortando um pouquinho aqui e remendando outro tanto ali. A interpretação do nosso grupo explica muito bem a possibilidade de uma pluralidade semântica a partir de Kant, em que vc teria diferentes domínios de validade mesmo, de modo que seríamos livres em um domínio e determinados em outro. Talvez seja até possível unificarmos, ou ao menos compatibilizarmos os dois domínios por meio da antropologia, como eu acho que querem Loparic e Daniel. Até concedo isso. Mas a questão prevalece. Vc mostra que há um jogo que, para ser jogado consistentemente, requer que vc acredite que é livre. Mas quem disse que vc é livre? É perfeitamente possível fazer o domínio da natureza engolir o domínio moral, ou seja, é possível diluir o jogo da moralidade/liberdade no jogo da natureza quando se parte para a metalinguagem. A independência do domínio moral está constantemente ameaçada, porque Kant tem razão: vc não consegue provar que é livre antes de provar que de fato tem deveres morais. Daí o q vc faz? Daí vc se sai com o "pode, porque deve". Ora, quem disse que vc deve? Isso é pedir o princípio. O cético está dizendo justamente que vc não deve nada. Em suma, o próprio recuo até a liberdade, q vc tanto quer aproveitar de Kant, em última instância, depende de uma fundamentação da moral que ele não é capaz de dar. Por isso que eu não entendo por que vc parece tão seguro sempre que fala em liberdade."
Andrea.
Antes, uma ressalva básica: eu não disse que sentimentos são necessariamente condições necessárias. Eu disse que “podem” ser condições necessárias. Creio que há uma diferença entre: (a) sentimentos são necessariamente condições necessárias e (b) sentimentos podem ser condições necessárias. Kant precisa admitir singelamente “b” face à maldade da natureza humana (para forçar bem o ponto). Repito aqui o que disse sobre o comentário do Charles. Não me interessa reconstruir ou interpretar Kant. Isso eu faço, com falsa seriedade, em determinados ambientes acadêmicos. Aqui, o meu interesse é filosófico apenas. Claro, sei que esse também é o teu interesse. Só digo isso para registrar que não dou a mínima importância a uma exegese de Kant nesse espaço. Bem, outra coisa: minha segurança quando falo em liberdade é profunda. Nisso você tem razão. Não sei como poderia te ajudar a me entender. Vou tentar. Antes, vale dizer, e você concordará com isso, que segurança não implica dogmatismo. Se você conseguir demonstrar (no sentido fraco do termo) que “meros elos numa cadeia causal” podem discutir sobre se o relativismo estaria certo ou errado (engraçado dizer isso com advogados do relativismo) – e ainda assim se considerarem seres intelectualmente autônomos e não meros autômatos espirituais; digo, se você me apresentar boas razões para que eu deixe de crer que sou livre, não no sentido compatibilista, eu roboticamente concederei que piso no pântano da insegurança.
Rá, achei que eu era a pessoa que mais fervia o sangue por detestar relativistas/relativismo(s), mas vejo que estou errada. Tenho um artigo sobre isso, não atrevo-me a publicá-lo pois sei da minha insignifância no tema e por ter uma carência bibliográfica IMENSA (se bem que o que poderia se esperar de uma mera graduanda de segundo ano em C.Sociais que não sabe nada de nada ainda? Quem sabe um dia...)
Mas, na minha "área de estudo" é comum ouvir comentários do tipo "Poxa, não pode ser assim, você tem que ser relativista" blah, blah, blah. Isso ocorre ao se discutir QUALQUER tema, mas parece-me que existe uma "predisposição" para tal na Antropologia.
professor, tenho uma duvida sobre o exemplo que o senhor deu de sexta feira e Robinson crusue.
O que poderia impedir sexta feira de tomar a força os cereais se so estavam os 2 na ilha e ele era fisicamente mais forte que crusue? Eu achava que motivo pros individuos não fazerem isso nos estados civis fosse a existencia do Leviatã, logo, se não havia um Leviatã na ilha não havia impedimentos pra ação de sexta feira a não ser o temor de que crusue pudesse ser mais forte, e se ele não fosse ou não demonstrasse ser não restaria impedimento algum.
Olá professor, tenho acompanhado o blog mais a muito tempo não comento. Os textos estão cada vez melhores. Não tenho muito a dizer. Talvez mostrar um caminho relativista (que certamente você conhece) que é via filosofia analítica, onde o uso das palavras impõe a significação das mesmas. Assim as palavras "bom", "mal", "moral", etc.. dependeriam de um contexto pragmatico de uso das palavras. Confesso que não é a imagem que me agrada, mas por outro lado ao invocarem o uso das palavras e o contexto me parece que de certa forma minam um universalismo ético. Não sei o que o senhor acha.
Até
Alison
Alison.
Não consigo ver por que o contexto pragmático do uso da palavra bom minaria o universalismo ético. Kant acredita – e estou de acordo com ele – que o sentido conferido pela linguagem ordinária à noção de dever moral implica universalidade.
Vanderson.
Do ponto de vista físico você está certo. Mas o problema é moral, não físico.
professor, oque o senhor colocou foi que, Robinson Crusue era proprietario legimo dos cerais ja que foi ele quem os plantou, a ação moral nesse caso implicaria Sexta feira respeitando o direito de Crusue sobre os cerais. Mas se sexta feira tinha todos os meios pra tomar os cerais, e nenhum grande obstaculo pra faze-lo, qual poderia ser o proveito de agir moralmente nesse caso? Sexta feira deveria mesmo estando com fome respeitar o direito de crusue, mas pra qual proposito? por que, de um ponto de vista pratico Sexta Feira deveria agir moralmente nessa situação?
Uma pessoa que acha que é errado (a) roubar, optaria por (b) pedir (seria o caso do meu Sexta-Feira). O que julgamos como moralmente certo já é um motivo para agirmos do modo certo.
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