24 Outubro 2010

Não a verdade, mas a vitória

Na Folha de São Paulo deste sábado (Ciência, 23/10/2010), encontra-se a seguinte matéria:

Cérebro humano conspira contra os debates ponderados


O neurocientista português António Damásio mostrou que é impossível até mesmo pensar sem mobilizar as emoções, mas isso não é desculpa para não tentarmos travar debates racionais, especialmente quando discutimos políticas públicas.O chamado "controle "top-down'", no qual o neocórtex -o, vá lá, cérebro racional- assume o comando, sobrepondo-se a nossas inclinações e apetites naturais, é um evento relativamente raro, mas não desconhecido.De um modo geral, ocorre exatamente o contrário. Nosso órgão executivo central é que age segundo um sistema de preferências internas preestabelecidas, com base em emoções e intuições morais esculpidas por condicionamentos culturais.

A feliz imagem de Robert Wright resume bem a situação: "O cérebro é como um bom advogado: dado um conjunto de interesses a defender, ele se põe a convencer o mundo de sua correção lógica e moral, independentemente de ter qualquer uma das duas. Como um advogado, o cérebro humano quer vitória, não verdade".

Esse sistema está tão enraizado dentro de nós que, de acordo com o psicólogo Jonathan Haidt, depois que um juízo intuitivo foi proferido e reforçado por uma racionalização, existem poucas circunstâncias sob as quais esse juízo pode ser alterado.

A primeira e a segunda têm mais a ver com interações sociais do que com pensamento propriamente dito. Elas são o efeito maria vai com as outras e a obediência a uma autoridade.

Haidt, entretanto, também traz uma sombra de esperança para os amantes da razão. Para ele, quando a intuição moral inicial é fraca ou inexistente e a capacidade analítica do sujeito, forte, também é possível reverter o juízo moldado pela intuição.

O problema aqui é que tendemos a ser objetivos nos assuntos que não nos interessam. Discussões sobre temas mais candentes, que despertam paixões e envolvem questões morais, estão sempre a um passo de converter-se em polêmicas, quando não batalhas campais.

(Hélio Schwartsman - Articulista da Folha)

 
Se isso for verdade, quão ociosas seriam nossas tentativas de discutirmos com os outros! Reféns de um cérebro que se comporta como um rábula. Numa apreciação inicial parece que as coisas funcionam assim mesmo. Há pessoas que simplesmente parecem destituídas de ouvidos, tanto físicos como mentais. Porém, quase todos nós tivemos a experiência de abandonar ideias. Nosso cérebro teve de aceitar derrotas. Eu acreditava em Deus, hoje não acredito mais. Eu considerava o capitalismo injusto, hoje penso que o capitalismo é condição necessária de uma sociedade justa (isto é, de uma sociedade em que tem lugar relações justas entre os indivíduos). Será que nossa capacidade analítica somente pode ser forte se nossas intuições morais forem fracas? Será que a minha intuição de que o corpo é propriedade - sagrada, bendita, abençoada e imaculada - do indivíduo é fraca? Pois eu estou sinceramente disposto a ouvir novos argumentos, ou novos desenvolvimentos de velhos argumentos contra essa minha “intuição moral”. Será que um ser dotado de uma boa dose de dúvida sobre os mais diversos assuntos é um ser moralmente fraco? Talvez. E talvez seja melhor sermos moralmente frágeis. Será? Bom, talvez o senhor Jonathan Haidt esteja errado.

2 comentários:

Vampira Dea disse...

Bem se é assim eu quero continuar moralmente franca, é a melhor defesa para o pensar livre, um bom álibi. Uma linda semana pra vc.

Angelo Lira disse...

Não sou leitor assíduo de Bocage, tampouco sou íntimo de sua trajetória de vida. Contudo, ler sua postagem, logo de imediato, me fez pensar nesse português.
Pelo que sei, o poeta em questão, enquanto afastado de uma certa moralidade, pode desenvolver inúmeros poemas consagrados à lingua portuguesa. No entanto, aproximar-se da velhice fez com que ele pudesse enxergar a moralidade de sua época e seus poemas, antes revolucionários, passaram por um processo de negação da conduta passada.
Seria o caso?
Enfim, diga o doutor o que quiser dizer, dizia Bocage o que queria dizer, nada me saca da cabeça a ideia de que cada caso é um caso.