05 agosto 2010

Tapas e beijos

A lei das palmadas
A interferência do Estado na vida dos indivíduos sempre será indesejável. Ainda inclino-me a considerar que um sistema de punições criminais e um aparato de coerção contra a coerção à liberdade compatível com a liberdade de todos requeira o Estado. Não estou, pois, completamente dissuadido da necessidade do Estado, porém confesso que cada vez tenho mais dúvidas sobre esse ponto. 

Quem me acompanha aqui no Blog sabe de minha ojeriza às coerções ilegítimas patrocinadas pelo Leviatã. Esse projeto da “lei das palmadas” é improcedente. A família deveria ter reconhecida sua soberania absoluta quanto ao tema educação. Todavia, também não sei exatamente como resolver as fronteiras da agressão justificável (digamos três palmadas) da agressão não justificada (dez palmadas). O que fazer quando há excesso na repressão física dos infantes? Chamar o Estado? É o que muitos responderiam. Mas onde fica o nosso querido e amado liberalismo (o libertário, não o conservador)? Não, não chamaremos o Estado. De todo modo, aparentemente, temos um problema.

Essa conversa me lembra de uma passagem da Pedagogia de Kant.

é algo estranho que alguns pais, depois de terem batido com uma vara nos seus filhos, exijam que depois lhes beijem as mãos. É propriamente acostuma-los à dissimulação e à falsidade. Os golpes não são, pois, um belo presente, pelo qual alguém possa mostrar-se agradecido; e pode-se imaginar facilmente com que coração a criança beija a mão de quem lhe bateu!
Deixemos o Estado de fora dessa questão. Ok. Ok. Pensemos apenas, supondo que o exemplo de Kant ainda ocorra, na cena desconcertante e, a meu ver, moralmente execrável, de pais que exigem um beijo em suas mãos depois de baterem nos filhos. Que cena, hein! Mas esse é um problema moral, bem entendido. Não se refere à coerção externa, mas simplesmente à ausência de uma autocoerção eticamente apropriada dos pais.

6 comentários:

Iara Fagundes disse...

Professor. Necessário considerar não apenas números de palmadas, mas a intensidade também. O mundo poderia tratar melhor suas crianças.

Anônimo disse...

Usar a força, a violência física em uma sociedade democrática é demonstrar incompetência na efetivação das metas. O cerne deste debate está na dificuldade e na incompetência dos pais( alguns, muitos) e dos professores em ser referência para seus filhos para seus alunos. Os pais precisam se preparar para serem pais, depois de preparados para exercer a função precisam de dedicação de ações planejadas e não impulsivas, menos ainda ações com vilência física.

Aguinaldo Pavão disse...

Iara.
Você tem razão. Reparo aceito.

Marcelo Rissatto disse...

E xingar, pode?

Uma palmada na mão se a criança fizer errado não pode mais. Se o pai chamar a filha de "vagabunda", ou algo que o valha, haverá algum prejuízo físico a criança? Físico talvez não, mas psíquico, quem sabe?

Pra finalizar.

Aguinaldo, o que lhe falta para deixar de crer na necessidade do Estado? Fiquei curioso.

Há mim, pensador de meia-tigela que sou, não falta nada, mas eu sou pequenino.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Marcelo.
Tenho dúvidas sobre conflitos entre agências privadas de proteção, sobre funcionamento do sistema penal, ou melhor, sobre a incongruência entre sistemas (códigos) penais diferentes. Atualmente, minhas dúvidas se concentram nesses pontos. Mas, como eu sou apenas um quarto-de-tigela e você já é meia-tigela, talvez você possa tirar de mim essas dúvidas e me converter, assim, ao sedutor anarco-capitalismo.
Abraço.

Nayara MRR disse...

Essa discussão me lembra algo que uma professora minha sempre dizia "Não sou mãe de ninguém, não tenho que ensinar bons modos a ninguém, e com o meu salário nem ensinar à vocês eu deveria". Me remete a essa memória todas as coisas que li sobre a palmatória... Não vivi esse tempo, mas se o tivesse, coitada de mim com uma professora como aquela!