29 maio 2010

Desejas o belo?

Cachorro

Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora.
O cachorro está sentado à minha frente - e me olha direto nos olhos.
Eu também olho para os olhos dele.
Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo.
Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.
A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas...
E fim!
Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?
Não! Não são um animal e um homem que se olham...
São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.
E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro.

IVAN TURGUÊNIEV
(tradução de Rubens Figueiredo. Folha de São Paulo, 23/05/2010).


Para variar, é claro, perdi completamente a respiração. Que coisa linda!

6 comentários:

Anônimo disse...

Um instante de alteridade: o duplo, o olhar, o espelho, algum reflexo. E ca morte espreitando... Eu realmente admiro os animais...

Anônimo disse...

Sou profundamente apaixonada pelos animais.Parabéns pela escolha do
tema.

Tiago Violante disse...

Bravo!

Chamas desejando as florestas...

Lembrei do fragmento nº 30 de Heráclito:

"Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida".

Vagner disse...

fazia tempo que nao entrava aqui,
chego e dou de cara com esse testo...
muito belo, realmente de perder a respiraçao e de nos fazer perguntar: em que ou melhor em quem a nossa vida assutada tenta se agarrar?
abraço professor

Francielly Venancio disse...

Lindo, incrivelmente lindo professor!

Vampira Dea disse...

Sempre é bom vir aqui.Encontro palavras que me deixam frente a frente comigo mesma.Boa semana.