Cachorro
Nós dois no quarto: meu cachorro e eu. Lá fora, a tempestade uiva, desenfreada, assustadora.
O cachorro está sentado à minha frente - e me olha direto nos olhos.
Eu também olho para os olhos dele.
Parece que quer me dizer alguma coisa. É mudo, sem fala, nem entende a si mesmo -mas eu o entendo.
Entendo que neste instante, nele e em mim, vive o mesmo sentimento e entre nós não existe a menor diferença. Somos idênticos; em cada um, arde e brilha a mesma chama, pequena e trêmula.
A morte virá voando, vai abanar sobre essa chama suas asas frias e largas...
E fim!
Depois, quem poderá distinguir que chama ardeu em cada um de nós?
Não! Não são um animal e um homem que se olham...
São dois pares de olhos idênticos, concentrados um no outro.
E em cada par de olhos, no animal e no homem, a mesma vida assustada tenta se agarrar no outro.
IVAN TURGUÊNIEV
(tradução de Rubens Figueiredo. Folha de São Paulo, 23/05/2010).
Para variar, é claro, perdi completamente a respiração. Que coisa linda!
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6 comentários:
Um instante de alteridade: o duplo, o olhar, o espelho, algum reflexo. E ca morte espreitando... Eu realmente admiro os animais...
Sou profundamente apaixonada pelos animais.Parabéns pela escolha do
tema.
Bravo!
Chamas desejando as florestas...
Lembrei do fragmento nº 30 de Heráclito:
"Este mundo, igual para todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez; sempre foi, é e será um fogo eternamente vivo, acendendo-se e apagando-se conforme a medida".
fazia tempo que nao entrava aqui,
chego e dou de cara com esse testo...
muito belo, realmente de perder a respiraçao e de nos fazer perguntar: em que ou melhor em quem a nossa vida assutada tenta se agarrar?
abraço professor
Lindo, incrivelmente lindo professor!
Sempre é bom vir aqui.Encontro palavras que me deixam frente a frente comigo mesma.Boa semana.
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