19 Dezembro 2009

Janelas do meu quarto

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Esse início de um dos mais belos poemas de Fernando Pessoa já foi sentido por mim como algo tremendamente belo e gerador de profundas, existenciais e metafísicas emoções. Hoje, o que se afigura saliente à minha sensibilidade é que se tratam de palavras de má poesia, de desabafo ordinário. O poema como um todo é belo, continuo achando isso. Mas, essa passagem inicial - e talvez tantas outras de poetas fáceis, ou, ao menos, que tem uma parte fácil da sua obra, de poetas pop, pops pelo menos entre um certo segmento de almas sensíveis - cada vez me desagrada mais.

Eu me inclino a ver nessas linhas inicias de Tabacaria a ideia de que o que vale é o mundo interior. Ah, o belo e denso mundo interior! Mas ele não vale nada. Se não quisermos ser nada, precisamos fazer alguma coisa. E qualquer coisa que fizermos será suficiente para mostrar que não somos nada, que seremos sim sempre alguma coisa, justamente o que fazemos ou deixamos de fazer. Não interessam os sonhos que o mundo jamais ficará sabendo (presumo que o mundo aqui seja tudo menos meu eu).

Já me confortei com essa retórica. Sei que é retórica poética. Sei que estou assassinando a poesia. Mas se a poesia não me diz nada além dessas bobagens, o que posso fazer? Quão confortável deve ser a vida do sujeitinho “à parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo”? Talvez ele nem merecesse falar em mundo! Qual é o mundo dele? Dos fracassados? Da incrível e vertiginosa beleza interior? Bah! O mundo, ora o mundo é dos que agem.

Alguém que escreveu coisas tão lindas não poderia ter escrito isso e oferecido alimento à legião dos derrotados (p.s. 15/01/2012: derrotados na vida, que nunca serão nada - não me refiro aos que caem em desgraças existenciais transitórias). [É claro que falar em "fracassados" e "derrotados" deve doer numa alma cristã! Oh, pobre alma cristã!]

5 comentários:

Lia disse...

Oi “professor”!
Achei amargo (mas sempre brilhante).
Bj.

Aguinaldo Pavão disse...

Lia.
Puxa, não vejo nada de amargo. Talvez amargos (porém certamente equivocados) sejam os ególatras teóricos. O post é apenas um encômio à ação e ao "verdadeiro" mundo da intersubjetividade fenomênica. E claro que tampouco é brilhante. Obrigado pela visita. Um beijo.

Iara Fagundes disse...

Acho estranho suas afirmações: “o mundo interior não vale nada”. Eu valorizo muito meu mudo interior e também o dos outros. E acho que isso é o que a maioria das pessoas pensa. Não é um senso comum razoável? Seremos ocos? Como afirmar que o mundo interior não vale nada?

Aguinaldo Pavão disse...

Iara, não afirmo que somos interiormente vazios. O que quis dizer, exagerando deliberadamente no tom, é que o mundo interior – quando assume algum valor – é uma inferência que fazemos a partir dos feitos do sujeito agente. Só isso. Os sonhos de alguém, depositados no interior profundo do seu eu, não são nada para o mundo se não comunicados. Do ponto de vista da primeira pessoa, pode ser profundamente encantador o “nosso mundo interior”. Mas, conquanto seres únicos, não somos seres insulares. E nossa não insularidade não pode admitir que a posse de todos os sonhos do mundo fique à parte do que (positivamente) somos.

karen disse...
Este comentário foi removido pelo autor.