Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.À parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Esse início de um dos mais belos poemas de Fernando Pessoa já foi sentido por mim como algo tremendamente belo e gerador de profundas, existenciais e metafísicas emoções. Hoje, o que se afigura saliente à minha sensibilidade é que se tratam de palavras de má poesia, de desabafo ordinário. O poema como um todo é belo, continuo achando isso. Mas, essa passagem inicial - e talvez tantas outras de poetas fáceis, ou, ao menos, que tem uma parte fácil da sua obra, de poetas pop, pops pelo menos entre um certo segmento de almas sensíveis - cada vez me desagrada mais.
Eu me inclino a ver nessas linhas inicias de Tabacaria a ideia de que o que vale é o mundo interior. Ah, o belo e denso mundo interior! Mas ele não vale nada. Se não quisermos ser nada, precisamos fazer alguma coisa. E qualquer coisa que fizermos será suficiente para mostrar que não somos nada, que seremos sim sempre alguma coisa, justamente o que fazemos ou deixamos de fazer. Não interessam os sonhos que o mundo jamais ficará sabendo (presumo que o mundo aqui seja tudo menos meu eu).
Já me confortei com essa retórica. Sei que é retórica poética. Sei que estou assassinando a poesia. Mas se a poesia não me diz nada além dessas bobagens, o que posso fazer? Quão confortável deve ser a vida do sujeitinho “à parte isto, tenho em mim todos os sonhos do mundo”? Talvez ele nem merecesse falar em mundo! Qual é o mundo dele? Dos fracassados? Da incrível e vertiginosa beleza interior? Bah! O mundo, ora o mundo é dos que agem.
Alguém que escreveu coisas tão lindas não poderia ter escrito isso e oferecido alimento à legião dos derrotados (p.s. 15/01/2012: derrotados na vida, que nunca serão nada - não me refiro aos que caem em desgraças existenciais transitórias). [É claro que falar em "fracassados" e "derrotados" deve doer numa alma cristã! Oh, pobre alma cristã!]

5 comentários:
Oi “professor”!
Achei amargo (mas sempre brilhante).
Bj.
Lia.
Puxa, não vejo nada de amargo. Talvez amargos (porém certamente equivocados) sejam os ególatras teóricos. O post é apenas um encômio à ação e ao "verdadeiro" mundo da intersubjetividade fenomênica. E claro que tampouco é brilhante. Obrigado pela visita. Um beijo.
Acho estranho suas afirmações: “o mundo interior não vale nada”. Eu valorizo muito meu mudo interior e também o dos outros. E acho que isso é o que a maioria das pessoas pensa. Não é um senso comum razoável? Seremos ocos? Como afirmar que o mundo interior não vale nada?
Iara, não afirmo que somos interiormente vazios. O que quis dizer, exagerando deliberadamente no tom, é que o mundo interior – quando assume algum valor – é uma inferência que fazemos a partir dos feitos do sujeito agente. Só isso. Os sonhos de alguém, depositados no interior profundo do seu eu, não são nada para o mundo se não comunicados. Do ponto de vista da primeira pessoa, pode ser profundamente encantador o “nosso mundo interior”. Mas, conquanto seres únicos, não somos seres insulares. E nossa não insularidade não pode admitir que a posse de todos os sonhos do mundo fique à parte do que (positivamente) somos.
Postar um comentário