Na sua coluna de domingo, intitulada “Tema polêmico” (FSP, Ilustrada, 29/11/2009), o poeta Ferreira Gullar argumenta contra a descriminalização das drogas. Acho que vale a pena alguns comentários.
[...] Os defensores da descriminação usam de um argumento que considero sofismático: alegam que defendem o fim da repressão ao tráfico de drogas porque a experiência demonstrou sua inoperância, isto é, a repressão não impediu o crescimento do tráfico e o aumento do consumo de drogas.Veja bem: o aparelho judicial e a polícia foram criados para reprimir o crime e defender a sociedade; não obstante, após séculos de existência, não conseguiram acabar com a criminalidade que, pelo contrário, cresceu. Devemos, por isso, não mais prender e punir os criminosos? Claro que não.Gullar está parcialmente certo. A razão consequencialista para a não criminalização do uso e comércio de drogas é frágil, mas não exatamente pelo motivo que ele aponta. Ela é frágil pois não se baseia numa teoria de direitos, mas em considerações empíricas, logo contingentes. Se a experiência viesse a demonstrar a eficácia das leis contra as drogas, então deveríamos aceitá-las? Não. As leis que punem as relações de compra e venda das substâncias chamadas drogas são intrinsecamente injustas. E a razão da ilegitimidade dessas leis é simples: elas punem relações de acordo voluntário entre as partes. Elas punem relações comerciais essencialmente similares às relações entre o vendedor de uísque e o comprador de uísque.
É claro que é uma conversa tola essa de “defender a sociedade”. As leis devem defender o indivíduo, não a sociedade. Mas vamos admitir esse ponto. Ainda assim, o argumento não funciona. Se não houvesse uma lei (positiva) que punisse o homicídio, qual seria a consequência? Imagino que até mentes piedosas, em seus momentos mais coléricos, poderiam sair por aí matando. Presumo que a inexistência de leis contra o homicídio redundaria num estado de natureza. Ora, não chegaremos ao estado de natureza com a não criminalização das drogas. Aumentará o consumo de drogas? Provavelmente sim, embora eu fique pensando: quantas pessoas que desejam consumir drogas não consomem porque há proibição? Talvez seja um número XXXX. Legalizado o consumo, o número talvez chegue a XXXXX. Se o comércio de tabaco fosse proibido, qual o percentual de pessoas que parariam de fumar? Bem, de todo modo, meu ponto sempre é anticonsequencialista. O meu ponto consiste em chamar a atenção para o fato de que a tese que os opositores da liberalização das drogas deveriam atacar é a tese da liberdade individual. Essa é a grande discussão.
[...] que autoridade teria um pai de família para aconselhar o filho a não consumir drogas, se o próprio governo as legalizar e as permitir?Essa é boa. Que autoridade tem um pai de família, hoje, para aconselhar seu filho a não consumir bebidas alcoólicas? Dependendo da ascendência moral do pai sobre o filho, o seu conselho terá considerável força sobre os motivos de seu filho. Mas se a ascendência moral for fraca, sequer funcionará o conselho para que o filho seja diligente em seus estudos. Ademais, o governo não pode ser considerado agente motivacional. Ele tem de lavar as mãos e deixar que os indivíduos resolvam como bem quiserem assuntos que só a eles dizem respeito.
Quando, pela primeira vez, ouvi falar da necessidade de descriminar as drogas, lembrei-me de que a cocaína não é produzida aqui, vem de países vizinhos, onde seu uso é proibido. Como vender legalmente uma mercadoria que entrou ilegalmente no país? A opção inevitável será, sem dúvida, o plantio, no Brasil, da coca, em larga escala. Deixaríamos de plantar feijão e arroz para cultivar um produto bem mais lucrativo.Sim. Ok, Ok. Agora, notem: então as pessoas que plantam tabaco devem parar de plantar tabaco e começar a plantar feijão e arroz? Cana de açúcar somente se pensarem nos queridos automóveis e nos adoráveis doces da mamãe? Como se a pessoa que se dedicasse ao cultivo de feijão nutrisse os mais nobres sentimentos filantrópicos e o agricultor que cultiva tabaco fosse um vilão.
Talvez por isso, passou-se a falar na legalização mundial das drogas. Essa gente delira, mesmo sem cheirar cocaína. Alguém acredita que Fernandinho Beira-Mar, que ganha milhões de reais com a venda ilegal de drogas, vai passar a pagar Imposto de Renda e ICMS? Ignoram que alguns dos maiores contrabandos que existem no Brasil são de pedras preciosas e de cigarros, que não têm sua comercialização proibida.Imaginem um indivíduo que deseja consumir drogas e pode escolher entre a Cia Ilegal de Drogas Fernandinho Beira-Mar e uma espécie de Souza Cruz da Maconha e da Cocaína. Ele escolheria qual? Depende. Talvez o produto do Fernandinho fosse mais barato. Mas então temos de admitir que a legalização provocaria uma espécie de concorrência entre o comércio legal e ilegal. Outros talvez preferissem a cocaína com o selo do Ministério da Saúde. Hoje as pessoas podem optar entre o cigarro do Paraguai e o cigarro da Souza Cruz. E que eu saiba Fernandinho Beira-Mar é antes de tudo um bandido. Traficar drogas não é o negócio da vida dele. É apenas um meio para seus fins criminosos. Agora, eu tendo a considerar como um cenário pouco provável o aumento do tráfico devido à legalização das drogas. Como alguém explicaria o aumento do tráfico com a legalização das drogas? É aceitável a ideia de aumento do consumo, não do incremento do tráfico. (de qualquer forma, esse ponto não tem importância decisiva na minha argumentação).
Mas há outro ponto também discutível, que é legalizar o consumo de drogas. Acreditam que o consumidor é um doente, que deve ser tratado e não castigado.
Será verdade que todo consumidor de drogas é um doente? Aposto que não. Os maiores consumidores de cocaína e drogas sintéticas não são viciados patológicos e, sim, consumidores que utilizam as drogas socialmente.Estou de acordo. A lei que pune o traficante e considera o usuário abstratamente como um doente é um disparate absoluto.
Não há o cara que bebe socialmente e não é alcoólatra? Assim como a maioria dos que consomem bebidas alcoólicas não é constituída de alcoólatras, há muita gente que ganha bem, goza de prestígio social como empresário ou artista, e consome maconha, cocaína, ecstasy, promove festas para, divertidamente, drogar-se, ele e sua patota. Compra drogas de vendedores qualificados, que não precisam subir o morro.
[...] o tráfico sobreviveria se, de repente, ninguém mais usasse drogas? Um exemplo hipotético: se as pessoas deixassem de consumir carne, a produção e o comércio de carne sobreviveriam? Todos sabemos que nenhuma mercadoria subsiste sem comprador. É um contrassenso, portanto, pretender acabar com o tráfico de drogas liberando o consumo. Essa liberação, sem dúvida alguma, multiplicaria por milhões o número de consumidores e fortaleceria ainda mais o tráfico.Isso significa que sempre haverá tráfico de drogas. Com efeito, a sua proibição não inibe o consumo. É claro que, em tese, seria possível que uma política altamente repressiva sobre os usuários gerasse o efeito de diminuição do consumo. Mas mesmo nos presídios, em que tal política de repressão existe, o consumo e comércio de drogas vicejam.
2 comentários:
Oi, Professor..
Para alguém que já teve que entrar em uma favela para pagar dívidas de drogas de um imbecil da família, a DESCRIMINALIZAÇÃO DAS DROGAS,é no mínimo em tema fascinante....Gostei da idéia....
(VANTAGEM I)
Bem, ao legitimarmos as drogas, tiraríamos de circulação esse bando de "subalternos esfarrapados" que pertencem a uma pirâmider altíssima que possue tentáculos nos mais altos clãs do poder. Isso é ótimo.
(VANTAGEM II)
Estaríamos empregando nosso dinheiro em impostos,que com certeza estariam sendo utilizados nas mais louváveis ações sociais...
(VANTAGEM III)
Estaríamos reestruturando uma instituição falida e incompetente que é o aparelho judicial. O termo usado pelo colunista "punir e prender criminosos" passa muito distante da realidade tal como ela é. Eu explico: o que temos são alguns "gatos pingados" ditos como chefões do tráfico no Brasil. A grande maioria presa e punida não passa de "soldadinhos-rasos", vestindo bermudas e chinelos, que mais parecem pedintes. Travestidos verbalmente pela imprensa hipócrita como "perigos sociais".
(VANTAGEM IV)
Os viciados agora estariam mais à vontade para comprarem as drogas num comércio com alvará, não precisariam mais se esconder para o consumo e assim estaríamos dormindo em paz com a nossa consciência...
Vejamos alguma desvantagens:
Ao legitimarmos as drogas, estaríamos deixando órfãos milhões de moradores das favelas do Rio e São Paulo, que só conhecem assistência social pelo "DONO DO BAIRRO", uma vez que essa gente é uma prole bastarda do Governo Federal.
O que seria de ACARI (um complexo de favelas cariocas onde o GRANDE IRMÃO possue cores: ora vermelho, ora verde:COMANDO VERMELHO e PRIMEIRO COMANDO DA CAPITAL. Esse povo estaria morto sem o tráfico, pois desde os Templos Evangélicos até o Hospital do bairro são doações dos "PIEDOSOS MANOS" .
Sou grande admiradora da Antropóloga Dra.ALBA ZALUAR:. que em suas pésquisas descobriu o seguinte sobre o crime organizado:
1)práticas de atividades ilícitas (legitimadas as drogas passariam a ser lícitas), 2)Atividades clandestina (não seriam mais), 3)hierarquia organizacional, 4)previsão de lucros (os maravilhosos impostos), 5)o uso da violência (não se faria mais necessário),6) divisão do trabalho (mais emprego, 7)Simbiose com o Estado, 8)Mercadorias ilícitas (seriam lícitas). 9) planejamento empresarial, 10)uso da intimidação,11) vendas de serviços ilícitos, 12) relações clientelistas (desmoronaríamos as máfias), 13) presença da lei do silêncio,14)controle territorial.
"O bem público em sua máxima para KANT é uma Constituição que garanta a Liberdade por meio da lei e permita cada um alcançar no âmbito desta Liberdade a felicidade pessoal".(NORBERTO BOBBIO).
-Bem caro BOBBIO: Esqueceu de nos dizer que felicidade é esta e em que estaria fundamentada.
-Professor se houvesse uma lei que permitisse matar, nem em uma das minhas piores TPMs eu o faria, aquela velha questão da subjetividade, blá, blá, blá.....
Outro ponto é: Será que ficaríamos imunes à dependência química utilizando uma única "vezinha" uma dose de Heroína (que na sua abstinência faz com que a musculatura cole aos ossos, causando dores mortais). Ou de vez em quando só um selinho de LSD, para relaxar na festinha (causa prazeres maiores do que o orgasmo, dos quais as pessoas dificilmente querem se livrar)...
Havemos de legitimar, mas havemos de conscientizar essa legitimação.
KAREM
Obrigado pela visita professor!
Gostei bastante do seu blog e de suas abordagens :}
Porém, devo lembrá-lo que vc deu filosofia na minha sala e não fui muito bem sucedida hehehe acontece né!
Devo confessar que não estudei o suficiente =/
um beijo!
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