Jesus subiu à montanha e disse:
“[1] Não julguem, e vocês não serão julgados. [2] De fato, vocês serão julgados com o mesmo julgamento com que vocês julgam, e se serão medidos com a mesma medida com que vocês medirem. [3] Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho? [4] Ou, como você se atreve a dizer ao irmão: ‘deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando você mesmo tem uma trave no seu? [5] Hipócrita, tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem para tirar o cisco do olho do seu irmão”. (Mateus 7: 1-5)As duas primeiras frases dessa passagem são curiosas. Primeiro, poder-se-ia pensar que não devemos julgar a fim de não sermos julgados. Quer dizer, se acalentarmos o interesse de não sermos moralmente avaliados, poderíamos comprar esse “bem” (não ser julgado) com a moeda do não-julgamento de outrem. Mas o fato é que Jesus Cristo não aceitaria a possibilidade de que poderíamos não ser julgados. Nós seremos julgados, de acordo com a sua doutrina. E isso fica evidente na segunda frase, que num certo sentido corrige a primeira. Tratar-se-ia apenas de verificarmos bem a medida que usamos no julgamento dos outros, pois ela poderia ser usada contra nós. Mas e se pensarmos que somos indulgentes em nossos juízos morais? Nesse caso, seremos julgados com indulgência? Não parece ter sentido essa conclusão.
O versículo 3 é muito interessante. Antes de julgarmos o outro, devemos proceder a um autoexame de nossa conduta moral. Parece ser uma boa regra. Com efeito, se estamos com nosso juízo moral prejudicado em virtude de uma trave em nosso olho, o julgamento que fizermos será defeituoso. A questão, portanto, não seria exatamente não julgar o outro, mas refletir sobre as condições para um bom julgamento do outro. Somos bons juízes? Precisamos tirar a trave. É possível tirar a trave? Bem, na medida em que isso for possível, poderemos apontar o cisco nos olhos dos outros. A propósito, sempre fazemos isso e parece impossível não fazê-lo.
A passagem poderia, aliás, servir de inspiração para alguém, com peitos estufados, dedo em riste, acusar: “hipócrita, você é um ser moralmente imperfeito, como ousa julgar os outros?” O acusador teria de ser moralmente perfeito. Ora, os seres humanos são seres moralmente imperfeitos. Logo, o julgamento moral somente poderia ser feito por deuses e santos. Mas nossa imperfeição moral não pode (não deve) impedir que façamos julgamentos morais. Por acaso não sabemos distinguir o bem do mal? Seremos espectadores indiferentes à maldade? Que erro há em acusar o autor de uma ação má? Não parece que o erro estaria justamente no silêncio diante do mal? Se a má-fé não estiver presente, nosso erro não poderá ser moral quando emitirmos nossos juízos morais.
Parece-me que julgar moralmente é um dever. É claro que sempre que julgamos moralmente alguém acabamos revelando um pouco de nossas disposições morais. Podemos revelar que somos covardes caluniadores, invejosos e ressentidos. Mas também podemos revelar que somos intolerantes com o mal, que não desejamos de modo algum transigir com a imoralidade. Portanto, a tese de que não devemos julgar para não sermos julgados, no limite, implica o abandono da própria moralidade. A Bíblia Sagrada mais uma vez está errada.
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