15 fevereiro 2009

Compaixão

Se você ficasse sabendo que um tremor de terra destruiu várias casas numa certa cidade e que algumas pessoas morreram, você seria indiferente a esse acontecimento? É até possível que sim, haja vista a profusão de tragédias que ocorrem no mundo: acidentes aéreos, terremotos, guerras. Talvez não sejamos tão sensíveis às coisas que nos chegam pelos jornais e televisão. Mas uma cena de sofrimento pode nos impactar e nos causar alguma dor, despertando o sentimento natural de compaixão. (Isso é ilustrativo da necessidade de não confundirmos caridade, a ação, com compaixão, o sentimento. Podemos ser compassivos sem sermos caridosos e caridosos sem sermos compassivos). De todo modo, as notícias de tragédias nunca se assemelham, para seres humanos que não sejam moralmente depravados, à vitória de nosso time do coração. Ou seja, não comemoramos tragédias humanas. Agora, imagine alguém que gosta de uma cidade francesa, que inclusive já morou nessa cidade, e que fica sabendo que houve um desastre natural nessa cidade. Seria até compreensível que essa pessoa não se compadecesse tanto, que não ficasse o dia todo se lamentando, mas não seria deveras excêntrico ver essa pessoa comemorar o desastre e lamentar que ele tenha sido menor que o previsto? Certamente. Acho que as pessoas moralmente normais pensariam que o lamento por um desastre ter sido menor do que se previa não condiz com sentimentos moralmente louváveis. Imagine que essa mesma pessoa, que lamenta os estragos de pouca monta na cidade francesa, diga em carta a um amigo, depois de saber de um cataclismo numa ilha o seguinte:

Duzentos mil seres aniquilados de uma só vez é magnífico.[...] A destruição radical de Nice e dos nicenses é que seria necessária ...

Um animal? E bem longe do que chamaríamos de animal humano!

Isso poderia ser apenas o caso de um extravagante senhor. Mas o fato é revelador, a meu ver. Com efeito, quem se comportou assim foi o senhor Fred Bigode. E ele tem “pensamentos” que vão ao encontro de sua reação desumana.

[...] a compaixão passa por virtude apenas entre os décadents. O que lanço ao rosto dos compassivos é que lhes escapa facilmente o pudor, a delicadeza, a reverência às distâncias, que compaixão cheira instantaneamente a plebe e assemelha-se às más maneiras a ponto de com elas confundir-se [...]. Coloco a superação da compaixão entre as virtudes nobres [...] Permanecer senhor da situação, manter a altura de sua tarefa limpa dos impulsos mais baixos e míopes que agem nas chamadas ações desinteressadas, eis a prova, a última prova talvez que um Zaratustra deve prestar – sua verdadeira demonstração de força .....

Não vou perder tempo apontando a confusão mental do senhor Fred Bigode a respeito de desinteresse e compaixão. Gostaria de observar o seguinte. Com base na citação acima, pode-se afirmar que, para Nietzsche, seria válida a seguinte frase: “os homens não devem ser compassivos”. Ora, essa afirmação nada tem de filosófica. Não passa de uma exortação moral. Sejamos caridosos com Nietzsche (e até compassivos, por que não?) e suponhamos, em seu benefício, que ele não esteja, como parece, fazendo pregação moral, mas interessando em descompactar conceitualmente o sentido de ser compassivo. O que estaria implicado na compaixão segundo o bigode? Decadência, impulso baixo e míope. Ok, um pouco de caridade: ele está certo, mas qual a conseqüência disso. E daí? E se for verdade que a compaixão implica decadência, impulso baixo e míope? Até aí nada mais do que psicologia e bem rasteira.

Acredito que compete à filosofia explicar o papel que a compaixão desempenha na vida moral. Isso poderá, evidentemente, resultar numa censura, ou melhor, numa compreensão de que se enganam aqueles que a consideram detentora deste ou daquele papel, visto que seriam incongruentes com determinadas premissas assumidas e, quiçá, justificadas. Mas é preciso reconhecer que faz parte da natureza humana sentir compaixão. Se isso é verdade, então uma pessoa insensível ao sofrimento alheio parecerá próxima ao algo não-humano (admitamos que alguns bípedes humanos não sejam bons exemplares da natureza humana). Mas o fato é que os homens em geral sentem compaixão. Proclamar que devemos nos limpar do sentimento de compaixão parece algo completamente descabido. Coisa de pastor, de pregador, de chorão no fundo.

8 comentários:

Alison Mandeli disse...

Olá professor, ótimo texto.

Adianto uma refutação que virá daqui a pouco ("eles" surgem de todos os lugares quando falamos do "GURU"). Vão dizer que é preciso ler mais, que é preciso ir pra "águas mais profundas" para compreender os oráculos (bah)...

Um abraço

www.alison-mandeli.blogspot.com

Anônimo disse...

Aguinaldo, acho que dá para ser caridoso com o bigode por outra via: talvez seu ponto seja o fato da compaixão ser tomada como virtude, algo moralmente louvável. Talvez seja isto que ele queira atacar.

Uma coisa é a compaixão ser um sentimento natural do homem, como você disse; outra coisa é ser uma virtude. Se assim o for, seria possível concordar com Nietzsche quando ele não inclui a compaixão no leque das virtudes morais e repudiar sua pregação de que um verdadeiro super-homem não deve sentir compaixão.

Não acho que a superação da compaixão seja sinal de virtude moral, mas considero um passo louvável não tomá-la como um sentimento digno de louvor.

Abraço.
Daniel Maireno

Anônimo disse...

Olá Professor,
Não posso deixar de comentar sobre este post fascinante, já que é um tema no qual estudo. Sinto-me mais motivada diante de cada investigação que faço sobre o conceito de compaixão, alem disso, as analises feitas me levaram a um campo muito mais vasto do que supunha anteriormente.
Descrever o sentimento compassivo como algo do qual conserva ou multiplica a dor, não parece explicar o termo e muito menos afastá-lo da motivação moral, além é claro, de não ser argumentos que comprove que seja algo decadente, como Nietzsche parece expor:
“Este instinto depressivo e contagioso debilita os outros instintos que querem conservar e aumentar o valor da vida; é uma espécie de multiplicador e de conservador de todas as misérias, por isso uns dos instrumentos principais da decadência do homem”.

Também gostaria de deixar claro aos adoradores de Nietzsche que não utilizo nenhum termo pejorativo, mesmo porque, não tenho muito conhecimento sobre este conceito para o autor, mas gostaria de utilizar a passagem à cima como ponto de partida primeiramente, porque afirmar que o sentimento compassivo não é uma motivação moral não é tão simples quanto parece.
Antes de considerarmos a compaixão como decadente e multiplicadora da dor, acredito que será muito mais promissor analisar-mos porque um indivíduo sofre diante da dor de alguém que lhe é estranho, parece razoável estudar como um sofrimento que não é meu pode, contudo me tocar.
Segundo Schopenhauer sofremos com a dor de outra pessoa porque nos identificamos com ela, neste caso desaparecem as diferenças, aquele que auxilia se confunde com aquele que é socorrido. Na compaixão não se almeja nada a não ser dar assistência ao outro, ela não visa o interesse particular, esta definição dada por Schopenhauer fica mais interessante na medida em que nós atermos ao fato, de que desaparece na compaixão a barreira que separa um individuo de outro (já que são partes de uma mesma essência indivisível, Vontade).
“É uma mesma essência que aparece em todos os seres vivos”.
Por meio do conceito de Vontade que o autor busca apresentar que o sentimento compassivo é uma motivação genuinamente moral, uma vez que, a compaixão não visa o bem estar próprio, mas se dirige imediatamente a alguém alheio a mim, e consequentemente ao ajudá-lo esta a prestar assistência ao todo se considerarmos que todos fazem parte de uma mesma essência (Todo o mundo visível é objetidade da Vontade), ou seja, ela não pode ser um sentimento egoísta, pois, não existe mais o eu particular este se confunde no outro.
“Sofremos com ele nele, e sentimos sua dor como sua e não temos a imaginação de que ela seja nossa”.
É decadente uma pessoa se perder no não eu para ajudá-lo? Tomar as dores de alguém como se fossem sua, me parece muito mais genuíno do que aquele que se sente indiferente diante de uma catástrofe, ora! Seria melhor não ter sentimento compassivo porque multiplica a dor? Não querer sofrer com o outro me remete muito mais ao interesse particular e miséria humana, na verdade purificar da compaixão me parece covardia, nestes termos.
Contudo, poderíamos problematizar ainda mais o assunto, uma vez que, se eu faço parte desta mesma essência, quando ajudo uma pessoa estou ajudando a mim já que também sou ela, como sei que não esta em jogo o meu interesse próprio? Só porque não planejei receber algo em troca, mas apenas desejei salva-lo de seus tormentos, não significa que isso não seja um sentimento egoísta.
E agora sim parece mais passível de admitirmos que a compaixão não seja uma motivação moral, na medida em que sofro por um outro e busco apenas aliviar a sua dor, estou consequentemente livrando-me do desprazer que me causa vê-lo sofrer.
O próprio Schopenhauer parece se contradizer ao tentar separar o sentimento compassivo do interesse particular:
“Quando nos comovemos e choramos não por sofrimentos próprios mais alheios, isso ocorre devido ao fato de na fantasia nos colocarmos vivamente no lugar do sofredor, ou, também, mirarmos em seu destino a sorte de toda a humanidade, consequentemente antes de tudo a nossa; portanto, via um logo desvio, sempre choramos de novo por nós mesmos, somos nosso próprio objeto de compaixão”.
Apesar do fato de não conseguir provar que a compaixão seja uma virtude, não consigo também comprovar que se sacrificar por um estranho seja algo decadente, qual a relevância de se multiplicar a dor, se esta conduzira a superação do sofrimento? É decadente então doar um rim para alguém só porque sofro sabendo que ela vai morrer se não encontrar um doador?
Gostaria de sugerir mais questões aqui, no entanto, receio ter estendido muito o argumento, se me for permitido colocarei outro ponto em resposta a seu post, posteriormente.
Espero que esteja bem.
Abraço.

Aguinaldo Pavão disse...

Recebi um comentário de um rapaz, que não deixou número de CPF nem RG e que, sendo assim, não terá seu comentário publicado. O rapaz faz questão de defender, segundo palavras suas, “o honrado filósofo ao qual você [euzinho] desonradamente insiste se referir” (kkkkk). Bem, o argumento que ele usa é deveras pobre. Para criticar pra valer a compaixão, daria para citar alguém realmente bom como Spinoza. Mas não. É uma mistura de compaixão com piedade, de compaixão com altruísmo, enfim uma confusão conceitual medonha e sem ir ao meu ponto. O que compete a um filosofo? Explicar as coisas. Simples. Eu gostaria que alguém mostrasse que esses reclames morais do senhor Frédi Bigode (oh, como desonro o coitadinho do sr. Nietzsche!) não são reclames, mas algo mais nutritivo. Reclamar isso e aquilo, proclamar que os homens devem ser assim ou assado, isso não compete a um bom filósofo. É coisa de pregador.
O rapaz deve ter ficado muito descontente e triste (ou seja, magoadinho) por eu me referir a tão sublime pensador com palavras que deslustram a sua irretocável reputação (quais foram mesmo?). Mas será que precisaríamos lembrá-lo de como Nietzsche tratava os outros filósofos? Será que não foi Nietzsche quem me inspirou a desonrá-lo? Acho que não. Acho que foi Schopenhauer, que realmente não respeitava os outros. Há uma frase de Schopenhauer na Quádrupla que eu gosto. Referindo-se ao seu tão querido Hegel, ele diz: “- Não se espere de mim que fale com respeito de pessoas que se serviram da filosofia com desdém.”

Anônimo disse...

Caro Mestre Aguinaldo,me corrija se estiver errado. O ponto em questão trata o sentimento moral como causa da moralidade? Ou melhor a superação dos sentimentos morais é o objeto proposto como um fim moral?
Caso seja essa a questão acredito que Nietzsche deixa o papel da filosofia, esse q a gente acredita ser de explicação, e emprega outro que é de prescrição. Isto é, afirma não poder ser consciente de uma exigência moral.
O sentimento moral não é a causa mas efeito da determinação de uma vontade,portanto, o descontentamento não é a causa mas apenas efeito deele ser virtuoso.
UM ABRAÇO LEEO

Allan Ribeiro disse...

Caro Aguinaldo,

Um texto muito bom!

Ia perguntar onde você tinha encontrado esse sr. Bigode. Demorou um pouco para cair a ficha.

Eu tampouco entendi a seguinte referência:
"Coisa de pastor, de pregador,"

Acho que estou meio lerdo hoje (tomara que seja só hoje).

Felipe Backes disse...

Muito bom o texto.
Sou estudante de direito, e estou estudando muito a filosofia deste autor para enriquecer minha crítica.
Se não for muita pretensão, gostaria de perguntar o porque de em certos momentos vocês ridicularizarem o autor.
Acredito que uma crítica construtiva não passa por aí. No momento que passamos ao desprezo, além de ser algo inteiramente desnecessário, é algo perigoso para nós mesmos.

Aguinaldo Pavão disse...

Oi Felipe.

Obrigado pelo comentário. Tua pergunta se refere a “vocês”, mas evidentemente só posso responder por mim. Ridicularização, escárnio, talvez até desprezo não passam de brincadeiras retóricas. O importante mesmo são os argumentos. Mas, às vezes, um temperinho de sarcasmo é inevitável em certas pessoas (talvez eu seja uma delas). Nietzsche adoraria, já que ele gostava muito de fazer isso com os outros. Mas, repito, o que tem importância são os argumentos. E não vejo nada de perigoso. E se porventura for, que seja. Abracemos os perigos.