Há pessoas que acreditam ser uma irresponsabilidade anular o voto. Essas pessoas pensam que quem anula o voto consente com a vitória de qualquer um. Mas isso é um erro. Nem todas as pessoas que votam nulo têm em mira consentir com a vitória de qualquer um. Eu votarei nulo e meu voto será justamente para dissentir com a vitória de qualquer um. Ou seja, eu não votarei nulo por pensar que qualquer um serve. Meu voto nulo visará passar a seguinte mensagem: “nenhum de vocês serve”. Quero manifestar minha contrariedade a todos os candidatos. São todos ruins. Nenhum deles merece ocupar o cargo de prefeito da cidade. São intelectualmente pobres, moralmente pusilânimes. São defensores de idéias autoritárias, pouco caso fazem da liberdade individual. Para começar, um bom candidato deveria dizer algo como: peço seu voto, mas lamento que você seja coagido a sair de sua casa para votar. Sou defensor conseqüente do voto facultativo. Em todas as tribunas que ocupei defendi essa tese. Já começaria bem. Ao pedir o voto, o candidato já estaria sinalizando algum apreço pela liberdade. Mas não. O que vemos é essa picaretagem imunda .... E, a meu ver, não interessa se não é da alçada do prefeito essa discussão. O que interessa é a existência de candidatos que advoguem teses libertárias, independente da esfera em que estiverem. Contra o segundo turno
E o pior, o Estado, como se já não bastasse a ilegítima coação que faz pesar sobre nossas vidas, impondo-nos a obrigatoriedade do voto, ainda impõe um maldito segundo turno. Sou duplamente coagido de modo ilegítimo. E por que segundo turno? Que importância tem o segundo turno para o alargamento da liberdade individual (que é a única coisa que me interessa em política)? O segundo turno constrange-me, tolhe minha liberdade de ficar em casa. Eu quero ficar em casa – e creio ter um direito natural de ficar em casa - sem me preocupar com zona eleitoral, seção eleitoral, título de eleitor. Mas não; não poderei ficar em casa. Terei de pensar nisso novamente. Segundo turno deve ser adorado pelas pessoas que adoram o blá, blá, blá político. Mas esse blá, blá, blá deveria ser odiado pelas pessoas amantes da liberdade. Pois ele não é feito sem custos à liberdade individual. Precisaríamos destituir de importância a política. Quanto mais importantes forem os deabtes políticos, menos importância terá nossa vida privada. Benjamin Constant no fundo foi muito dócil com a liberdade dos antigos, que de liberdade mesmo tinha muito pouco.
6 comentários:
Caro Aguinaldo,
Neste blog, tenho acompanhado cada postagem e discussão há muito tempo. Já discordei dos seus escritos algumas vezes, mas jamais discuti algum problema, porque simplesmente não teria os argumentos necessários para convencê-lo do contrário. Então, para não ter que dizer no final das contas que não poderia provar a minha tese, decidi primeiro publicar este comentário que visa algum esclarecimento.
Certo, você defende o primado da liberdade individuaL. Por exemplo, defende a legalização das drogas, pois, para você, como o sujeito é dotado de livre-arbítrio, ele pode (ou deve?) optar pelo uso ou não de qualquer droga e independentemente de se a sua mãe irá chorar ou não, ele é livre para se matar aos pouquinhos. Tal sujeito deve ter as suas ações reprovadas e combatidas, somente se infringir com a liberdade de outro sujeito. Por exemplo, caso espanque a própria mãe.
Entendo que você defenda o voto nulo --- idéia que acho louvável ---, porque é o sujeito usufruindo de sua liberdade e ainda por cima gritando bem alto nos ouvidos dos candidados: "Vocês não servem!".
Finalmente, entendo que você não é um consequencialista. Não importa as consequências das suas idéias na prática. O importante é que elas priorizem a liberdade individual. Contudo, pergunto-me: será que o melhor caminho é mesmo dispensar as possíveis consequências das ações em defesa do livre-arbítrio de todos? Pode-se sustentar diante de consequências nefastas a defesa de uma liberdade individual? Não seria um caminho mais viável compatibilizar a liberdade individual com as possíveis consequências das ações? A minha impressão é de que a liberdade individual defendida por você simplesmente não existe.
Grande abraço,
Fabiano.
P.S: Mesmo discordando das suas idéias, saiba que admiro profundamente os seus argumentos.
Caro Fabiano
Agradeço o teu comentário. Tuas críticas serão sempre bem-vindas. Eu acho que é preciso considerar as conseqüências. Certamente. Apenas acho que essa consideração deve estar subordinada ao princípio da liberdade. Lendo o teu comentário, lembrei-me de uma famosa passagem da CRP, em que Kant comenta as críticas à Republica de Platão.
Ele diz que a necessária participação nas idéias mereceria uma investigação e a colocação em nova luz, e não simples rejeição sob o pretexto de inviabilidade. Pois ao perguntar-me se a liberdade individual que defendo não seria algo inexistente, o trecho veio-me inevitavelmente à lembrança. Kant diz que “uma constituição, que tenha por finalidade a máxima liberdade humana, segundo leis que permitam que a liberdade de cada um possa coexistir com a de todos os outros [...] é pelo menos uma idéia necessária, que deverá servir de fundamento não só a todo o primeiro projeto de constituição política, mas também a todas as leis. [...] Nada pode ser mais prejudicial e mais indigno de um filósofo do que fazer apelo, como se faz vulgarmente, a uma experiência pretensamente contrária, pois essa experiência não existiria se, em devido tempo, se tivessem fundado aquelas instituições de acordo com as idéias e, se, em vez destas, conceitos grosseiros, porque extraídos da experiência, não tivessem malogrado toda a boa intenção”. A verdade não depende de Kant ter afirmado isso, é evidente. Mas Kant disse e me parece uma justa homenagem citá-lo quando pensamos na existência ou não existência de uma idéia.
Abraço.
Olá Aguinaldo,
Caso o voto fosse facultativo não teríamos ainda uma maior porcentagem de eleitores que recebem assistência do governo e que muitas vezes pouco instruídas, interessadas apenas em garantir sua “mesada” nos próximos quatro anos, sobre os mais esclarecidos que tem consciência da importância da liberdade do indivíduo? Com isso políticos muitas vezes mais interessados em manter-se no poder do que com a liberdade individual se destacariam entre os outros por ter uma política assistencialista. Não pagaríamos um preço muito alto pelo voto facultativo? Poderíamos ter a liberdade de não votar, mas em conseqüência perderíamos liberdades de coisas mais relevantes como a de fumar em locais públicos.
obrigado.
Na verdade, liberdade não é isso tudo. Acho que ela não tem a importância que geralmente se pensa que tem. É melhor defender o fumo de alguns que a liberdade de não votar de todos. Precisamos instruir os eleitores. Depois veremos se podem ser dispensados do voto. Ora, bolas, liberdade!
Caro Aguinaldo,
Agradeço profundamente pelo seu comentário. Bom, por ora, ficarei apenas com os meus pensamentos, mas espero que na Anpof já tenha algumas palavras.
Abraço,
Fabiano.
Aguinaldo, tantas vezes neste blog, argumentou a partir do princípio da liberdade individual. Não me lembro deste próprio princípio já ter sido colocado em questão. Lembro que a discussão recente com o Marcos enveredou bastante por este caminho.
Na ocasião, eu defendi que haveria argumentos para defendermos o princípio liberal. Não seria, penso eu, apenas uma opção de fé, a partir da qual seríamos coerentes ou não.
Assim, quando alguém faz pouco caso da liberdade, isto me remete imediatamente a este tipo de discussão. Quando algum frei Beto, por exemplo, elogia um governo que trata bem dos dentes de seu cidadão, mas não lhe concede o direito de criticar o próprio governo, eu interpreto nisto o elogio da menoridade, da tutela.
Pouco importa aqui se trocarmos o tratamento dentário por "instrução". Se a tal "instrução" não é educação para o exercício da liberdade, para o fim da menoridade, tanto faz.
O que está em jogo aqui, na disputa entre liberais e sei lá o que, é a disputa entre os que querem alcançar a maioridade e os que querem continuar crianças. Bom, com crianças, não se discute, se educa...
Abraços
Andrea
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