Quando ingressei na Universidade, aos 17 anos, alimentava um sentimento difuso de simpatia pelo socialismo e de hostilidade ao capitalismo. Lendo Marx, acreditei ter começado a ver algumas coisas com uma clareza maior. Filiei-me ao PT e me aproximei das pessoas mais inteligentes que naquela época existiam no PT. Essas pessoas eram ligadas ao PRC (Partido Revolucionário Comunista), depois Nova Esquerda. Já neste grupo, comecei a ver alguns equívocos da visão política de Marx. Quando cheguei em Londrina, em 1995, me considerava um social-democrata, não mais um socialista. Mas somente em 1996, quando conheci o professor Marcos Rodrigues da Silva , é que tive a feliz oportunidade de me confrontar com uma visão sofisticada do liberalismo, que definitivamente punha em xeque minha visão política. Resisti enquanto pude, mas acabei sucumbindo diante de suas teses. Percebi que as teses de Marcos Rodrigues eram procedentes e que minha defesa da liberdade individual era incoerente com minha adesão à social-democracia. Devo dizer que, mesmo quando ingressei no PT, meu apreço maior sempre foi pela liberdade individual, mas, confesso, um apreço inconsistente. Convenhamos, apreciar a liberdade individual e acreditar que a sociedade deve se organizar com base em princípios socialistas é simplesmente uma tremenda confusão que só pode gerar um colapso entre fins e meios.
Foi Marcos Rodrigues que me apresentou Milton Friedman (Capitalismo e Liberdade). Posso dizer, sem nenhum exagero, que Marcos Rodrigues foi a melhor influência intelectual que sofri sobre questões políticas (devo confessar que também sobre questões filosóficas, mas isso é assunto para outro post). Depois de minha rendição, li autores como Nozick (Anarquia, Estado e Utopia), Von Mises (Liberalismo, livro que o Marcos me emprestou). Com base nessa nutrição, reli com outros olhos Locke, Kant e Benjamin Constant.
Quando fui apresentado a Milton Friedman, Marcos me advertiu que eu estava equivocado em pensar que apenas a liberdade política deveria ser defendida com as restrições mínimas da compatibilidade da liberdade de todos, sendo que a liberdade econômica deveria sofrer restrições maiores. Eu acreditava que, na esfera econômica, deveríamos em certos casos preterir a liberdade à igualdade, mas não na esfera política. A grande lição que recebi foi a seguinte: se somos realmente amantes da liberdade, se somos realmente defensores do seu princípio, temos de aceitar que sempre ela deve ser preferida à igualdade. Quando a igualdade tem supremacia sobre a liberdade é o indivíduo em seu legítimo espaço de ação que é conspurcado. Preterir a liberdade à igualdade resulta invariavelmente numa ilegítima coação. Aprendi que a liberdade da ação em geral deve sofrer apenas a restrição da coexistência da liberdade segundo uma lei universal possível. Kant me ajudou bastante nesse ponto.
Hoje poderia dizer que, embora entre mim e Marcos haja grande afinidade política, eu estou mais para um intemperante ultraliberal, ao passo que ele mantém-se fiel à tradição de sobriedade do liberalismo. Marcos, presumo, se aproxima mais do conseqüencialismo ético de Von Mises, eu sou simpático ao deontologismo de Nozick. E é exatamente Nozick que me conduz a uma visão mais radicalmente libertária que Von Mises. Portanto, penso que hoje é Nozick quem melhor define minhas diferenças políticas com o professor Marcos Rodrigues. * mas veja a mudança para o anarcocapitalismo.
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Comentário do Prof. Marcos Rodrigues da Silva
"Re: como me tornei um liberal".
Se há algo que me perturba filosoficamente é a chamada relação causa-efeito; infelizmente, exceto para propósitos práticos, em geral sou bastante cético para determinar com alguma confiabilidade o que é uma causa. gosto muito da palavra "acaso" - ainda que admita que ela, na maioria das vezes, não possua muito sentido. porém, como "sou filósofo" apenas em sala de aula, me permito utilizá-la com prodigalidade.
O professor Aguinaldo é filósofo permanente, não apenas de sala de aula. Diferentemente de mim, a filosofia está no cotidiano do professor. Como colega do professor, convivo diariamente com esta figura intelectualmente fascinante; chegamos juntos na Universidade, no mesmo horário, e dividimos a mesma sala, iluminada naturalmente por alguma propriedade que emana do professor. O professor Aguinaldo, ao contrário de todos nós, não emite o tradicional e simplório "bom dia" sem que, nesta exígua locução, já percebamos a parafernália intelectual sendo posta em movimento. O nosso cafezinho, que tomamos logo em seguida à nossa chegada, não é o café despretensioso do leitor; queria eu ter um pequeno caderno de apontamentos e anotar cuidadosamente as pequenas peças filosóficas com as quais o professor Aguinaldo me premia na alvorada. Como o Nelson Rodrigues pensava a respeito do Otto Lara Resende, também me espanta que não haja um taquígrafo permanente para registrar, de forma incansável, o que pensa o professor.
E o professor não gosta que eu use o termo "acaso". mas que outra explicação, senão pelo acaso, para certos encontros, conversas e transformações intelectuais? como diz o Friedman, a sorte é uma das melhores explicações para o que quer que seja.
O relato do aguinaldo é verdadeiro: fui eu quem o apresentei a algumas idéias liberais, as quais me foram apresentadas pelo meu grande amigo e professor Julio César Rodrigues Pereira. Mas as omissões do Aguinaldo também devem aparecer: que eu fui um leitor medíocre do Nozick, que eu nunca - ao contrário do Aguinaldo -me preocupei em sistematizar e desenvolver o pensamento liberal, que eu nunca escrevi um texto decente sequer sobre o assunto etc.
Por acaso o professor Aguinaldo tomou contato com o liberalismo comigo. Poderia ter sido com nosso já citado amigo comum Julio, com o Paulo Francis, com um livro mal colocado na prateleira do sebo e que escorrega para cima do Aguinaldo. Se o contato comigo foi uma causa para seu liberalismo, então o foi tanto quanto a embriaguez é causa de um acidente.
Mas nada disso importa. Quer dizer, um pouco de história é sempre bom. É sempre bom saber que uma dezena de cientistas experimentais adotaram procedimentos confiáveis e fizeram descobertas relevantes; mas nunca se pode esquecer que os grandes saltos da ciência foram o trabalho dos grandes homens, em geral pouco preocupados em saber se a medida estava de fato correta; em geral muito preocupados em constituir grandes agendas de trabalho, agendas que atualmente são títulos de capítulos de manuais científicos. Newton declarou que enxergou muito longe por estar nos ombros de gigantes - mas convenhamos que era o homem certo para estar ali.
As idéias plausíveis têm de estar nas mãos certas. Não é por acaso que a idéia mais importante da nossa cultura - a idéia de liberdade - tem sido desenvolvida, analisada e exposta maravilhosamente pelo meu amigo Aguinaldo. É pelo seu trabalho, sua persistência, sua audácia intelectual. e é isto o que importa. a depender de mim, ainda estaríamos, eu e o Aguinaldo, se fôssemos discutir o liberalismo, na estória dos três porquinhos. Assim, a história do Aguinaldo é de fato verdadeira e, como tabelião deste post, a autentico judiciosamente. Mas é uma daquelas verdades que importam muito pouco se comparadas aos estudos liberais do Aguinaldo.
Eu queria ser breve mas não vai dar. mas vou tentar daqui para frente.
Para sorte do Aguinaldo, atualmente eu tenho pouquíssimo tempo livre [na minha agenda está assim: ligar para o Aguinaldo antes de novembro, impreterivelmente]. Mas um dia eu tive - e fui procurá-lo para almoçar. Saí perdido pela cidade, olhando pelas esquinas, bancas de revistas, sebos, cafés: finalmente o encontrei. eu precisava saber o que pensar sobre alguns assuntos [desde que deixei de assinar a folha de são paulo deixei também de saber o que pensar]. Fui almoçar com o notebook, para não perder nada [minha memória é maravilhosa, mas ela altera os fatos com uma facilidade assustadora]. Fiz a pergunta de um repórter: como estamos com o liberalismo? O Aguinaldo me atualizou. Em seguida elogiei uma ação do estado. O Aguinaldo me solicitou esclarecimentos. Gaguejei e estruturei um argumento - que durou menos de um minuto, liquidado pela lógica paralisante do Aguinaldo: "o Estado não é necessário para viabilizar o que você quer". insisti um pouco: mas e aqui, e ali?: "Não é necessário". nos despedimos e, é claro, esqueci o assunto.
Voltei a lembrar quando li o post. E acho que o Aguinaldo tem razão [no post]: estou mais próximo de Mises, mas não sei exatamente o quanto pois não tenho mais o livro do Mises. penso atualmente que o Estado é mais necessário do que eu julgava tempos atrás. O mercado não pensa "globalmente", só o Estado pode fazê-lo [e se o Estado não consegue é outra discussão]. A iniciativa individual é a única iniciativa com eficiência, mas ela precisa ser regulada por uma entidade que a julgue do ponto de vista das conseqüências que a iniciativa promove. Para mim, a única conseqüência que deve ser levada em consideração é a seguinte: a iniciativa impede a liberdade de alguém? Se não impede então não a iniciativa não pode ser condenada. mas quem responde a pergunta anterior? É o Estado quem deve responder. Desenvolvendo o ponto, diria também que é o Estado quem deve pensar as políticas de habitação, educação, emprego etc. pensar e depois passar o projeto à iniciativa individual. E depois voltar para fiscalizar.
Mas isto não importa - o que importa é o post original. Não vejo muita importância na história, exceto no momento em que ela começa a narrar algo importante, decisivo, fatal. [assistam Holanda e Argentina, final da copa de 78, e vejam se não dá para contar toda a campanha das duas seleções apenas a partir daquele jogo - é claro que dá.] O blog do Aguinaldo é um destes momentos; quando ele se tornou um liberal não é. É pelo blog que começamos. Na nota de rodapé está o post, mas se começa pelo blog. Mas o blog, caros leitores, é apenas uma pequena [ainda que representativa] parte do que é na verdade o seu autor. Eu conheço muitos filósofos brasileiros, e conheço muitos grandes filósofos brasileiros, alguns dos quais já estiveram, por minha iniciativa, em Londrina. O Aguinaldo é um deles, posso dizer com segurança. e é meu amigo. E, por conta desta amizade, eu pude aprender muita coisa diretamente com ele. Talvez a mais importante tenha sido a de aprender a pensar - o que, no caso, significa levar às últimas conseqüências o que dissermos. não fui exatamente um bom aluno, mas muita coisa ficou. por conta de muitos trabalhos práticos, de aplicação da filosofia, de coordenação de curso, não consigo a todo momento ir ao limite - mas se faz o possível.
Espero que o Aguinaldo se sinta tão homenageado quanto eu me senti. E que os leitores do blog me desculpem pela prolixidade. Mas não tinha outro jeito.
A minha admiração pelo blogueiro é genuína e não podia ser expressa, como diz o Aguinaldo, telegraficamente.
Londrina, agosto de 2008
Marcos Rodrigues da Silva, professor de filosofia
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Quem já leu Marcos Rodrigues conhece bem sua verve literária. Dêem uma olhada no título de sua tese, nos títulos dos capítulos dela. Lembro que certa vez mostrei um artigo meu ao nosso amigo Julio César Rodrigues Pereira. Julio olhou com pena para mim e disse: você até pensa bem, mas escreve muito mal. Leia mais e converse mais com o Marcos. Este sim sabe escrever. Como se pode notar, o comentário dele está repleto dos feitiços retóricos e poéticos que sua mente filosófica e literária não saberia reprimir. A elegância e a beleza dos ornamentos verbais que Marcos tão bem manipula permitem que façamos a leitura de seu comentário como uma peça de ficção. É claro que nem tudo que ele disse é ficção, mas ao menos os elogios que ele me faz devem ser seguramente lidos como ficção. E, confesso, gostaria muito de ser esse personagem que ele criou. Ah, Marcos, o livro do Von Mises ainda está comigo. Preciso te devolver.
Aguinaldo
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