A revista Época desta semana traz uma entrevista muito interessante com Richard Lynn (professor de Psicologia da Universidade de Ulster, Irlanda do Norte) sobre inteligência e crença em Deus. Para variar, uma chamada enganosa. O titulo da entrevista coloca entre aspas a afirmação Os ateus são mais inteligentes. Contudo, lendo a entrevista encontramos a seguinte declaração de Lynn: “não é porque se é religioso que se é menos inteligente”. A tese de Lynn é de que “há uma tendência de encontrar Q.I. mais alto em pessoas não-religiosas”. Ele acredita que “isso acontece porque a inteligência aprimorada leva ao questionamento da religião”. Se fosse apenas esse o ponto, não teria reparos a fazer. Porém, o professor Lynn não consegue estabelecer – e a matéria da revista muito menos - uma clara distinção entre inteligência e ateísmo por uma lado e inteligência e irreligiosidade por outro. Ao ler a entrevista, fiquei pensando nos filósofos. Vamos imaginar uma lista mais generosa que a dos cinco gigantes (Platão, Aristóteles. Descartes, Hume e Kant). Pensemos em Platão, Aristóteles, Agostinho, Tomas de Aquino, Descartes, Hobbes, Spinoza, Locke, Berkeley, Hume, Leibniz, Rousseau, Kant e Schopenhauer. Bem generosa, hein! 14 nomes (e ainda Rousseau no meio, bah!). Os filósofos em geral são não apenas considerados inteligentes, são considerados pessoas dotadas de um cérebro intelectualmente sutil. Ora, se adotarmos uma divisão singela entre ateus e agnósticos de um lado e teístas de outro (uso “teísta” num sentido lato), a conclusão é de 11 para 3. Explico: eu considero Spinoza um ateu, Hume, um agnóstico e Schopenhauer um ateu. Aristóteles poderia ser considerado um caso especial. Aquele motor imóvel dá a impressão de um mero dispositivo mecânico (embora esse não fosse o pensamento do estagirita). Mas o argumento de Aristóteles é uma das cinco vias de Aquino; daí tomá-lo como um teísta. Se a divisão for ateus, agnósticos e teístas, o time dos bons cai para 1: apenas Hume.
Se o critério for a capacidade de questionamento, os agnósticos ficam com medalha de ouro, pois eles não questionam apenas a existência de Deus. Mais agudos, eles questionam também a não-existência de Deus.
Minha conclusão: se alguma coisa deve ser indicativa de superioridade intelectual, eu diria que não é exatamente o reconhecimento ou não de razões para existência de Deus, mas a inclinação a considerar o problema da existência de Deus de um ponto de vista religioso.
Alguém poderia alegar que um indivíduo pode ser filosoficamente sutil e também ser religioso. Mas isso somente seria possível se a mentalidade filosófica dele funcionasse apenas no horário de expediente. Se a sua suposta mentalidade filosófica contagiar sua existência intelectual como um todo, então aposto que ela não tolerará coexistir com uma mentalidade religiosa. Imaginem um camarada que acredita na virgindade de Maria, na ressurreição do nazareno. Qual o grau de sutileza filosófica dessas crenças?
Acredito, pois, que o ponto não é exatamente a oposição entre os inteligentes ateus e acéfalos teístas, mas entre as mentes mais sutis e irreligiosas e as religiosas, pois uma mente religiosa sempre será uma mente filosófica e intelectualmente limitada.
17 comentários:
Uma pessoa que busca a religiosidade, o místico, de forma sincera, pode a meu ver, possuir uma mentalidade filosófica tal qual um descrente. Basta que o religioso reconheça a incapacidade de sua razão diante do dogma e que a fé deve preceder a compreensão dessas "realidades reveladas" em que ele deposita a crença. Se ele pudesse compreender tudo onde estaria a fé? Já não existiria e a religião deixaria de ser. Minha impressão é que a fé e a razão são dois polos inconciliáveis. O religioso deve perceber isso para que viva um misticismo sincero e verdadeiro.
Mas no limite, uma mentalidade religiosa acaba se auto-restringindo a certos questionamentos, pois existe uma verdade "dada". Ela automaticamente se coloca abaixo de uma mentalidade filosófico-irreligiosa. Mesmo que potêncialmente a capacidade intelectual do religioso e do irreligioso sejam iguais o religioso deve submeter-se a um estado que o torna, pelo menos formalmente, inferior a mente descrente.
Mas isso não deve atingir o religioso pois: "Deus esconde essas coisas dos sábios e revela aos pequeninos"... ou "É na fraqueza que Deus me faz forte" ou ainda "a inteligência dos homens é loucura para Deus". E assim por diante...
Abraço
Alison.
Você pergunta: “Se ele pudesse compreender tudo onde estaria a fé?”. É preciso notar que a incapacidade de compreensão não exige, de modo algum, a fé. Você fala numa pessoa que busca a religiosidade. Mas eu pergunto: por que deveríamos buscar a religiosidade?
Abraço.
Olá professor.
Quando eu disse “Se ele pudesse compreender tudo onde estaria a fé?” Não quis dizer que isso o impele ao ato de fé. Quis dizer que esse desconhecido que o religioso acredita é imprescindível para a religião. É justamente isso que o religioso faz: submeter sua fé a realidades desconhecidas. Se o religioso exige conhecer tudo sua fé não é verdadeira pois fé é justamente esse ato despretensioso de acreditar no invisível.
Quanto a segunda questão: "por que deveríamos buscar a religiosidade?"
Não sei responder. É uma pergunta interessante, pensarei nela.
O artigo sobre filosofia da religião em Kant não está abrindo, eu gostaria de lê-lo.
Abraço
Não me parece que a religiosidade possa ser um dever, Aguinaldo, mas pode ser uma atitude compreensível justamente quando nos damos conta dos limites da razão, da linguagem. O problema é o místico que não se reconhece como tal e pretende racionalizar sua crença ou levantar qualquer tipo de pretensão de objetividade com relação a ela. Acho que estou pensando na mesma direção do Alison então. O espírito filosófico seria compatível com um "misticismo esclarecido", se é que isto não seria uma contradição nos próprios termos. Como você sabe, tenho procurado desafiar a capacidade da linguagem de dizer a coisa em si. Mas isto não significa que o dito não esteja sempre a se dar a partir do indizível, como bem colocou o prof. Leonel em Londrina. Por enquanto, tenho mais intuições do que resultados de uma pesquisa, mas desconfio que o Wittgenstein do Tractatus esteja com boa dose de razão.
Abraços
Andrea
Andréa
Quando fiz a pergunta ao Alison, não estava pensando exatamente em dever moral. Pensava, e penso, nas razões que uma pessoa teria para buscar a religiosidade - se seriam boas razoes ou não. Certamente deve ser compreensível. Os sociólogos talvez ofereçam boas explicações para isso, embora eu prefira as dos biólogos. Bem, o dizível dito a partir do indizível? Não sei ... Não entendo.
Eu não vejo nenhum lugar razoável na mente de alguém para sentimentos e crenças religiosos. Gostaria de ser dissuadido dessa opinião. Apenas isso.
Abraço.
O que eu quis dizer, Aguinaldo, é que nosso conhecimento sempre terá uma matéria, no sentido de algo determinável, que não é gerado por ele próprio, ou seja, pelas formas determinantes. Não estou procurando retomar o mito do dado, mas entender que, mesmo que o dado sempre seja também lingüístico em certa medida, ao menos como resíduo da análise, precisamos aceitar que havia uma matéria para a linguagem dar forma. Esta matéria é o limite da linguagem. Penso que Kant tenha sido tentado por ela em sua teoria da dupla afecção bem como em todas as passagens isoladas em que menciona a afecção pela coisa em si, mas, a bem da verdade, não podemos falar do que nos afeta em um nível transcendental. Estaríamos querendo transcender a linguagem com a linguagem. No entanto, isto, que não pode ser enunciado, também não pode ser descartado. Creio que esta seja a origem razoável do misticismo: esta certeza de que algo está além do discurso racional, algo que simplesmente não pode ser tocado por ele. Mais do que uma religião, no entanto, que, parece-me, pressupõe um corpo doutrinal, portanto, um discurso pretensamente objetivo, penso que o místico deva inspirar a arte. Kafka dizia tentar comunicar o incomunicável. É por aí...
Abraços
Andrea
Andréa.
Espero ter entendido o que você escreveu. Se consegui, então gostaria de dizer o seguinte. Talvez não estejamos falando da mesma coisa. Eu me refiro à religiosidade, e entendo por religiosidade o sentimento e a crença em determinados artigos de fé que se relacionam direta ou indiretamente a Deus. Não estou pensando em limites da linguagem, em místico como fator psicológico a condicionar a arte. Nada disso. Isso não tem a ver com religiosidade, a não ser acidentalmente. Penso em algo bem simples. A religiosidade que inspira muitas das reflexões de Pascal, de Agostinho, de Kierkeggard, por exemplo. Eu discordo dos que pensam, como você, que a religião pressuponha um discurso pretensamente objetivo pelo fato de possuir um corpo doutrinal. Isso não é necessário na religião, ou seja, a pretensão de um discurso objetivo. O cristianismo não é isso.
Não é por aí ...
Abraços.
É, eu acho que não estamos nos entendendo, Aguinaldo. Quer me parecer que, quando o religioso fala em Deus e desenvolve teses sobre ele, ele já está "domesticando" o suprasensível, quer dizer, objetificando-o. Enfim, acho que você concorda que a religião necessariamente aponta para o sobrenatural. Para que eu entenda se defendemos teses diferentes sobre o mesmo ponto ou falamos de coisas diferentes, eu queria, se possível, que você explicasse o que entende por uma religião sem pretensões objetivas, que não se resuma a sentimentos místicos cuja única expressão lingüística seria artística.
Abraço!
Andréa.
A disjunção que você propõe – ou pretensão objetiva, ou sentimento místico – sequer considera a compreensão de Kant sobre a religião (a qual, presumo, você não negligenciaria sem mais).
Se a tua disjunção for válida, então como devo enquadrar o que diz Agostinho, a saber:: “Preferindo a doutrina católica, já sentia, então, que era mais razoável e menos enganoso sermos obrigados a crer o que não demonstrava, quer houvesse prova [...] quer a não houvesse. [...] Censuráveis eram os que não criam. Por isso não lhes devia dar ouvidos, se por acaso me dissessem: ‘como sabeis que tais livros foram entregues ao gênero humano pelo Espírito do único Deus verdadeiro e infalível?’ Ora, era isso precisamente o que havia de crer, porque nenhum ataque das inumeráveis controvérsias e calúnias que lera em filósofos entre si desavindos me pôde arrancar a fé. Por isso nunca deixei de acreditar na vossa existência, apesar de ignorar o que éreis e desconhecer que o governo das coisas humanas Vos pertence”.
Se crer for aceitar uma verdade sem razões, isto me parecerá uma pretensão (irracional) de objetividade. Em Kant, a crença teria mais a forma de um "aja como se", não? Ainda assim, não sei se o esquematismo analógico daria conta do significado dos termos em questão. O suprasensível tem um significado prático e recebe os símbolos sensíveis, mas ainda é suprasensível e a demanda por um conceito do suprasensível me parece envolver uma contradição, mas, claro, não conseguiria demonstrar isto brevemente e ainda é um trabalho em gestação.
Abraço
Aguinaldo, digite "fegury" no google ou no yahoo e encontrará meu site em que escrevi na biografia a seguinte frase:
"A fé evoluída ao máximo transforma-se em convicção".Quando a crença do ser humano alcançar seu mais alto grau de evolução, ele estará convicto sobre Deus.
Quando a crença dos ateus, de que não existe Deus, chegar ao seu ponto máximo de evolução, trará aos ateus a certeza de que Deus existe, ou do contrário(?). Eu lhes digo: a única obrigação de quem se diz sério de propósitos, é não parar de pesquisar a verdade.
Michel.
Quem acredita em Deus parou de pesquisar a verdade. O crente em Deus acha que a verdade já foi encontrada. Parece-me que nada garante a afirmação (ademais dogmática) de que o grau de evolução do ser humano (sei lá o que isso significa) implica convicção sobre a existência de Deus.
Abraço.
Nossa, o Agostinho escreve bem não é!!!
Ler Agostinho é um "porre" como e senhor comentou em um encontro do projeto.
Abraço
Aguinaldo,
Como seu blog não mostra a data em que os comentários foram lidos ou postados, pergunto-lhe quanto tempo você demorou para responder ao meu cometário depois de lê-lo.
Justifico minha pergunta pelo fato de eu ter observado ao longo de minha vida profissional de advogado público, que muitos males derivam da pressa na interpretação do que está escrito em leis ou em qualquer outro lugar.
Eu jamais me referi à "evolução do ser humano" como você escreveu em sua resposta ao meu comentário, mas sim à "evolução da crença do ser humano".
A sua crença de que Deus não existe, por exemplo, pode receber o acréscimo de uma informação que você ainda não conhecia, e no instante em que isso acontecer, ela evoluirá num sentido ou no outro, mas sempre em direção ao seu grau máximo: a convicção de uma coisa ou de outra.
Agora, se você crê que já possui todas as informações possíveis e imagináveis sobre este assunto, isso é sinal de que uma de duas possibilidades esteja ocorrendo:
1- você realmente possui todo o saber, e neste caso eu vou querer conhecer a sua fonte de conhecimento, se assim você permitir.
2- você ainda não possui todas as informações, e não querendo adquiri-las, se expõe ao risco de se igualar a todos os demais crentes de igrejas que não contribuem para a descoberta da verdade por se contentarem com uma fé que sustenta absurdos, e por isso deve ser chamada de "fé-cega".
Michel.
“Evolução do ser humano” e “evolução da crença no ser humano” a meu ver não passam de resmungos verbais. Dá tudo na mesma. Ou melhor: a segunda expressão consegue piorar as coisas, pois o grau de obscuridade dela é mais patente que a primeira. É evolução da crença do ser humano no ser humano? E evolução da crença do ser humano em Deus? É evolução da crença do ser humano na busca da verdade pelo ser humano? É evolução da crença do ser humano na qualidade moral do ser humano? É a evolução da crença do ser humano na própria crença do ser humano? Pronto, agora eu sei a razão da pressa na minha interpretação. Na pressa, minhas interpretações tendem a ser caritativas.
Agora, e esse papo de que eu poderia acreditar possuir todas as informações sobre o assunto? Se você quiser duelar com fantasmas, faça teu duelo sozinho, ou se conseguir contrate um espectro para discutir. Se quiser que a tua espada dê golpes no vento, continue escrevendo desse jeito. Mas peço uma coisa: não esqueça que o ônus da prova sempre será de quem afirma a existência de Deus (e concedo: até de quem nega). Evite a falácia da inversão do ônus da prova. O agnóstico não afirma, nem nega a existência de Deus.
Ah, só um aviso. Esse blog não é um espaço democrático. Eu mesmo sou uma pessoa declaradamente contra a democracia. Esse blog é um espaço de discussão que exige uma certa camaradagem, embora às vezes a temperatura ferva. Digo isso – não obstante saiba da sua ociosidade - porque não tenho nenhum compromisso de publicar teus comentários se o tom deles não me agradar. Seja duro com meus argumentos, mas não me venha com tagarelice de causídico. Aqui não fica bem. Eu não gosto.
Em nenhum momento vi o proprietário do blog assumir um ateísmo nesses posts. Não entendi então a frase:
"A sua crença de que Deus não existe, por exemplo, pode receber o acréscimo de uma informação que você ainda não conhecia, e no instante em que isso acontecer, ela evoluirá num sentido ou no outro, mas sempre em direção ao seu grau máximo: a convicção de uma coisa ou de outra."
Será que estou sendo apressado? Bem vamos interpretar em favor do escritor, talvez seja só um exemplo.
Michel, poderia esclarecer uma coisa:
A convicção, alcançada pela evolução máxima da fé, é baseada em pressupostos racionais ou místicos?
1) Se for místicos, fideístas, argumentos não explicarão a "crença evoluída ao máximo". Será apenas algo do sujeito, onde por analogias ele tentará explicá-la.
2) Se for racionais, onde estará a virtude (no sentido grego de arete) do crente? A partir do momento que vusualizo racionalmente o objeto de fé, ele desaparece e se transforma em objeto de conhecimento. Não acho que um místico esclarecido se importaria com isso. Pelo contrário, um místico esclarecido sabe que "as obras de Deus são inefáveis".
Talvez precisamos compreender melhor que teólogos não construirão teorias para explicar a flutuação quântica do big-bang e nem cientistas, filósofos (ou advogados), deduzirão uma equação para explicar a santíssima trindade.
Michel.
Acho suas colocação infeliz e irracional.Infeliz porque você sustenta implicitamente que a felicidade só é possível e tendo ela como verdade teleológica a partir de uma redenção conclusiva com um artíficio sobrenatural.
E irracional porque você sustenta um projeto de vida baseado na superstição e no dogma,qu são fenômenos mitológicos e fechados ao questionamento,com uma ordem totalitária.
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