24 outubro 2007

Liberdade e poder

(A República, por Alexandre Beck)

De acordo com Hobbes "quando o que impede o movimento faz parte da constituição da própria coisa não costumamos dizer que lhe falta liberdade, mas que lhe falta o poder de se mover; tal como uma pedra que está parada, ou um homem que se encontra amarrado ao leito pela doença". Algumas pessoas reclamam que a liberdade seria um conceito meramente formal e vazio se não carregasse consigo o poder para alcançar os fins das ações que os individuos desejam. Dizem que, no capitalismo, as pessoas não são verdadeiramente livres, pois não podem ter o carro que desejam, a casa que desejam, o conforto material que desejam, as viagens que desejam, os cursos de línguas estrangeiras que desejam, os livros que desejam e por aí vai (a choradeira dos humanistas sentimentais tem uma lista interminável de desejos que não podemos realizar). Mas como seria a sociedade se a liberdade significasse ter poder para alcançar o que desejamos? Vamos assumir que todos devem poder ter uma bela moto. Isso significa o quê? Que serão produzidas motos para todos os desejantes de motos? E quem pagaria as motos? Elas não seriam vendidas? Mas quem pagaria os fabricantes de motos? Ou as motos se tornariam um direito dos indivíduos? Assim como alguns falam que todos têm direito à educação, todos teriam direito a uma moto. Legal, não? Talvez as motos existentes fossem usadas em revezamento pelos desejantes de motos? Mas como seria organizado esse revezamento? Eu acredito que seria melhor assumir apenas o seguinte: todos podem ter a moto que desejarem, desde que não haja imepedimentos externos para que eles alcancem seu objeto de desejo. Isso significa dizer que, não havendo impedimentos externos às ações que os indivíduos devem presumivelmente realizar a fim de adquirem o poder para terem a moto de seus desejos, haverá liberdade (externa) em seu pleno sentido.

9 comentários:

Unknown disse...

Belo post! Mas há também os mais coerentes que dizem claramente preferir o Estado que saceia ao menos nossas necessidades ao Estado que respeita nossa liberdade (querem um papai eterno), daí o elogio à suposta Cuba que garantiria saúde, educação... à sua população.
Enfim, que fujam para lá então, escrevam a propaganda para consumo interno e nos poupem desta lengalenga.
De minha parte, coincidentemente, compro minha moto amanhã (se tivéssemos conversado, pensaria ter inspirado teu post).
Abraços!

Aguinaldo Pavão disse...

Andréa.
Moto? Mas nao era uma Ferrari?
Abraços.

Unknown disse...

Uma coisa de cada vez...

Anderson disse...

Interessante as argumentações. Porém se passarmos para um produto que pode ser visto como um artigo de luxo superior a uma moto, 1 prato de comida por exemplo, como nos ocupariamos?.
Ou a fome se enquadraria também no quadro das liberdades? Desse modo "o indivíduo é livre para sucumbir de fome, juntamente com os seus".
Pelo que saiba Hobbes diz que a presenvação da vida é um direito natural dos indivíduos. Um ndivíduo sem a subsistencia básica esta a não garantir sua integridade física, e sua vida por conseguinte.
Porém se este indivíduo não possui o aqui chamado poder, para garantir tal, seria esse realmente livre?
Sera que tais optam por escolher a miséria ao inves da vida, ou seriam vitimas de uma sociedade que não os possibilitam de viverem? Um sociedade que é coposta por homens, logo homens impossibilitando outros ao bem-supremo da vida, e o Estado assegurando tais condita, ou seja o Estado legalizando homens agindo contra a vida de outros. Mas esse não seria o verdadeiro papel do Estado, seria?
Uma vez que o próprio Hobbes aferi que os homens só entraram em sociedade, só realizarão o contrato social, para ter enfim a garantia da sobrevivência e a paz.
Até que ponto a falta de liberdade não se mescla com a falta de poder?
Será que os indivíduos deveriam fazer valer essa liberdade pelos senhores conjurada, e buscar os meios necessarios para sua sobrevivência numa sociedade que por meios legais os distanciam destas. Mas dai seriamos coniventes ao crime, não seriamos?
Como nos portariamos nestas ocasiões de extrema desigualdades?
Estes indivíduos são realmente livres?
Poderiamos até citar Sartre, para resolver a questão, mas acredito que não se enquadra num contexto hobbesiano.

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Anderson.
Obrigado pelo comentário. A meu ver, um faminto é um ser humano livre se suas ações não forem impedidas por ações de outros seres humanos. O que torna uma pessoa A não livre é justamente a ação de outrem, de B - ação esta entendida como obstáculo coercitivo à ação de A. Para Hobbes é um direito natural fazer o que se quer para a preservação da própria natureza. No estado de natureza isso conduz à justificativa (unilateral) das ações de quem inicia violência. Por certo, eu não concordo com essa ideia. A meu ver, todo início de agressão é injustificável do ponto de vista moral.
Entendo que um direito não é a garantia de nada (de nenhum provimento de bem), mas tão-somente a prerrogativa de fazer uso legítimo da coerção contra outrem.
De acordo com Hobbes, que não é obviamente um filósofo liberal, a caridade pública tem de ser admitida como legítima. Liberdade externa, como entendo (e nossa discussão é sobre liberdade externa), somente tem sentido quando compreendida como não-impedimento. Você é livre à medida que você não é impedido por outrem. O que conta numa relação entre uma pessoa e outra quando se fala de liberdade é a relação entre agir contra ou não agir contra, isto é, em ser obstáculo à ação de outrem ou não. O simples fato de alguém ao meu lado estar passando fome não implica de modo algum que seja eu ou outra pessoa ao meu lado obstáculo às suas ações.
Abraços.

Vanderson - 1º ano Fil disse...

prof Aguinaldo ao que me parece o senhor defende que, nos casos onde o individuos que são mebros do Estado tem liberdade em suas ações, todas elas são morais ou justas desde que não haja violencia nem coersão contra outrem,me parece tabem que se a desigualdade provem de uma situação onde todos os individuos tem essa liberdade, então essa não é injusta(mesmo nos casos em que pessoas acumulam grande riqueza enquanto outras morrem de fome), mas isso me parece utopico, pois se tomarmos como exemplo o estado brasileiro, podemos dizer que a desigualdade que aqui existe procede de enormes injustiças historicas como a escravidão e a capitania hereditaria de terras, nesse caso em que a desigualdade tem essas causas o senhor defenderia mesmo assim que ela é justa?e poderia em uma sociedade onde os individuos se tornaram desiguais em consequencia de uma injustiça alguem defender devidamente propriedade privada? liberalismo?ou o senhor descordaria quanto aos fatos que eu apresentei? esses são meus pensamentos sobre uma das questões que foram tocadas, a desigualdade, desejo corrigir os meus pensamentos se eles não forem corretos.

Aguinaldo Pavão disse...

Caro Vanderson.
Gostaria de fazer apenas o seguinte acréscimo em relação ao que tenho dito. A escravidão é moralmente injustificável. A meu ver, descendentes de escravocratas deveriam pagar indenização pecuniária aos descendentes de escravos. Acho que essa declaração é suficiente, pois quanto aos demais pontos, minha opinião já foi explicitada. Ah, uma outra pequena coisa talvez mereça ser dita: ser ou não utópico não parece relevante quando discutimos questões morais. Com efeito, se meus princípios morais estiverem certos, consequentemente eles serão princípios que poderão determinar as ações dos indivíduos. Nesse tipo de discussão basta argumentar contra os princípios.
Abraços.

Carlos disse...

Caro Aguinaldo.
Não seria mais justo o Estado ser imputado pelas vítimas da escravidão? Não vamos nos esquecer que foram barbáries cometidas com respaldo da lei e talvez de grande parte sociedade.
Acrescentando que não estou apoiando cotas raciais em universidades.

Aguinaldo Pavão disse...

Carlos.
A impressão que tenho é que tua ideia se apóia num princípio injusto. Se o Estado tiver de pagar as vítimas da escravidão, não só pessoas inocentes terão de pagar, como as próprias vítimas teriam de contribuir, pondo a mão no bolso, para o pagamento de suas indenizações. O Estado não apenas não é um ente moral, ele é um aparato que precisa tirar dinheiro dos indivíduos para sustentar suas ações.
Abraço.