
Há algumas semanas, na aula de Ética no segundo de filosofia, afirmei algo como: “conheço apenas uma cabeça inteligente que tenha acreditado na existência dessa coisa chamada filosofia oriental. Esta cabeça chama-se Schopenhauer”. Houve uma discussão sobre se realmente Schopenhauer acreditava na existência de uma filosofia oriental. Pois bem, eu mesmo acabei ficando em dúvida e voltei correndo para casa atrás dos livros de Schopenhauer no afã de encontrar um apoio textual para o que tinha dito. Encontrei algumas passagens que me aliviaram.
Em Parerga e Parilipomena, Schopenhauer fala em “éticas da filosofia européia” (Parerga, Capítulo XIV, § 163). Ora, existiria na época de Schopenhauer outras filosofias que não a européia? Acredito que, para Schopenhauer, sim. Com efeito, no capítulo VIII, § 110 de Parerga, ele usa textualmente a expressão “filosofia vedanta”. Schopenhauer também cita em alguns lugares um livro chamado “História da filosofia oriental” e não faz nenhuma ressalva ao título.
Penso que Schopenhauer, se levarmos em conta a sua compreensão de filosofia exposta, por exemplo, em “Sobre a filosofia universitária”, não poderia coerentemente defender a existência de uma filosofia oriental. E não adianta falarmos que ele usou a expressão filosofia num sentido frouxo, lato. As coisas só pioram assim, pois um filósofo não pode ser negligente com o uso da sacrossanta palavra filosofia.
2 comentários:
Prezado Jorge.
Muito obrigado pelo comentário.
A meu ver, não se trata de pensar se um filósofo pode ser “tudo aquilo que os professores de filosofia gostariam que ele fosse”. Que importância pode ter o que alguém gostaria que outros fossem quando se discute simplesmente a procedência ou não do que um autor escreveu? Nenhuma importância, eu respondo. Alguém poderia defender a divindade de algum filosofo? Alguém discute isso? Eu não conheço. Logo, vamos ao ponto.
O que Schopenhauer escreveu está escrito. E ele deve ser julgado, como qualquer mamífero humano que escreve livros, ou que simplesmente escreve qualquer coisa, pelo que escreveu e não pelo que tinha a intenção de escrever. Alguém sondou as intenções do autor? As intenções (ocultas) do autor não interessam. O uso indevido da palavra filosofia está documentado nos textos de Schopenhauer e sobre isso parece que você está de acordo comigo. Portanto, esse ponto está superado.
Restaria, talvez, discutir a compreensão mais rigorosa e, certamente, mais feliz que Schopenhauer tem de filosofia. Essa compreensão envolve a idéia de que a filosofia tem como objetivo analisar (reflexiva e criticamente, é claro) o sentido do mundo. Eu entendo que o sentido do mundo não pode ser objeto da filosofia (ou apenas: que a filosofia não tem esse poder analítico), porém acredito que Schopenhauer apresenta sua compreensão do mundo de modo argumentativo, com alta sofisticação conceitual, praticando, a seu modo naturalmente, aquilo que os gregos. Não há, pois, filosofia que não seja ocidental.
Correção/adição
PENÚLTIMA FRASE
aquilo que os gregos inventaram
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