
Se democracia significa, tout court, soberania popular, eu não sou democrata. Mas o fato de não ser um democrata não significa que eu seja contra eleições. O princípio da maioria tem de ser aplicado em alguns casos. Todavia, o procedimento de eleições presidenciais, tal como existe no Brasil, não me agrada muito. Mesmo que fosse eleito o Alckmin, o meu pensamento não mudaria. Primeiro, em nosso país os indivíduos são obrigados a votar. Eu não consigo perceber que autoridade o Estado ou a sociedade tem para me obrigar a votar. Em segundo lugar, elegemos uma pessoa para ser presidente do país, com poderes evidentemente limitados, mas com mais poderes do que deveria ter. Explico: acho que seria muito mais razoável concedermos ao congresso nacional o poder de eleger um primeiro-ministro comprometido com um determinado programa aprovado nas urnas mediante a eleição de uma maioria parlamentar. De todo modo, o fato de Lula ter sido eleito não torna, felizmente, o Brasil um país verdadeiramente democrático. Há limites para o poder político. Há uma constituição e ela tem, ao menos no seu início, algumas regras bem razoáveis. O que quero dizer é que, mesmo tendo a maioria do povo manifestada sua posição em favor de um candidato, o impacto que isso terá em nossas vidas será, espero, não muito grande. Com Lula, acho que terá um impacto maior que o desejado, mas ainda assim estamos a salvo, é o que creio, de uma interferência intensa em nossa liberdade individual (que já é pequena). Viva, pois, a não-democracia.
2 comentários:
Oi Renato.
Acho que a democracia deve ser entendida como um sistema político em que o povo é soberano. Sendo assim, acho que a desigualdade social é perfeitamente compatível com a democracia. É evidente que é uma situação indesejável que um país tenha um número expressivo de pessoas vivendo na miséria. Penso que devemos separar o domínio da política do domínio da economia. Eu aplico o conceito de democracia apenas ao domínio da política.
Thiago.
Obrigado pelo comentário. Eu discordo de você. Não acredito que o povo seja “massa de manobra”. O povo é responsável, mesmo escolhendo irresponsáveis. A tese de que o povo é "massa de manobra" não pode ser demonstrada empiricamente. Mas se alguém conseguir apresentar tal demonstração, eu mudo de idéia. A simples alegação de que o povo é “massa de manobra”, sem evidencias empíricas, não me parece nada persuasiva. Eu digo "vivia a não-democracia", mas digo isso porque defendo a liberdade individual.
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