13 agosto 2021

Análise política

Acho que todos concordam que o bom analista político tem de ter um bom faro psicológico. Penso em faro próprio, não faro da carona, quando o camaradinha lê em algum lugar e replica, sem citar fontes, alguma sacada alheia. Faro mesmo, coisa que envolve muito treino e talvez tenha até algo instintivo na base. Coragem também. Não só para não ter de sempre agradar a opinião do seu círculo de confrades, mas principalmente para correr o risco de fazer viagens mentais sem mapinha, sem roteiros predefinidos (digamos, pensar por si mesmo). É claro que, em maior ou menor medida, todos desligamos às vezes o faro e nos acovardamos. Ok. Não estou falando como se essas ressalvas valessem somente para os patifes, pois a covardia atinge qualquer ser humano. Na verdade, estou assumindo nossa mediocridade moral e intelectual diante de coisas com feições insólitas, como parece ser o caso de Bolsonaro.
Agrada-me sobretudo o olhar que quer compreender, não apenas julgar. É isso que tenho em mente quando falo em faro psicológico (curiosidade psicológica, entender os motivos). Se a pessoa confunde análise, descrições, explicações, jogar luzes nos fenômenos com avaliações, julgamentos, críticas as coisas não vão longe. Essa é uma dificuldade a mais com figuras como o presidente Bolsonaro. Ele instiga nas pessoas sentimentos primitivos de repulsa e o analista cai nessa cilada muitas vezes de modo inocente. Julgar é fácil, compreender é um pouquinho mais complicado (não diga!).
E quem quer compreender vai ter de oferecer, se for analista político, algo mais que boas descrições (muitas vezes recheadas de adjetivos desabonadores que muito me agradam). Precisa também fazer previsões. Esse é o meu ponto aqui. E as previsões?
É preciso muita vigilância para não confundirmos nossos desejos com nossas análises. O estudioso das miudezas políticas - pode ser um jornalista, um politólogo, um sociólogo ou até mesmo um filósofo, excluo dessa lista analistas amadores como eu - quer a derrota de Bolsonaro, o seu fracasso e projeta em suas análises esse desejo. Não dá. Ele diz: ele vai perder, mas quer dizer: eu torço para que ele perca. Eu gostaria de ouvir apenas análises com previsões. É um desejo meu, com isso penso que não estou fazendo mal a ninguém. E gostaria que explicassem por que erraram sobre as eleições de 2018. Seria um bom começo. Esse exercício de autocrítica diria muito sobre eles (mas já diz muito fazerem de conta que não lembram de mais nada que escreveram e disseram).
(ah, um aviso: estou levando em consideração alguns analistas que leio no UOL, Folha de São Paulo, que vejo na CNN, Globonews. Mas mesmo nesses lugares, por vezes, me deparo com coisas interessantes, porém sem a ousadia da previsão e a honestidade da autocrítica. Por higiene mental eu não dou ouvidos ao séquito bolsonarista. Esse não conta para mim, nem o séquito esquerdista).
Por acaso Bolsonaro seria um psicopata suicida? Que hipótese, hein. Ajustem bem os conceitos, ó profundos analistas. Ele chegou até aqui. Ele sabe jogar. Ele é um estrategista (dói ouvir isso? Ui). Por acaso ele é um fracassado no jogo político? Que eu saiba ele ganhou uma eleição para presidente. Ele está na cadeira por mera obra do acaso? Hum .... Ah, foi só sorte?

Digam-me, ó analistas, vocês que o entendem, qual será o próximo lance desse jogo? Quais os próximos passos? Arrumem pra mim o cenário de 2022. Eu não tenho tempo (na verdade não tenho capacidade cerebral de penetrar nesses meandros e descortinar algo além do que todos podem ver). Ajudem esse miserável ex-vendedor de picolé. Eu passo 24h por dia pensando em Montaigne, Tolstoi, Hobbes, Alice, Helena, Schopenhauer, Yuri Alberto, Kant, Taison e Platão. Compreendam que não dá tempo de me debruçar sobre o assunto.
Mas deixo aqui minhas previsões. Bolsonaro sofrerá impeachment ou não? Eu, que desejo que ele sofra impeachment, prevejo: não sofrerá. Estará no segundo turno? Eu, que anularei desde o primeiro turno meu voto, prevejo: estará. Problema com a primeira previsão: descobre-se algo bombástico, um flagrante, algo como, perdoem-me os pudicos, batom na cueca, aí sim rola um impeachment. Problema com a segunda previsão. Grave crise econômica, daí Bolsonaro fica fora do segundo turno.
Ah, a última: vai ter golpe? Minha previsão valendo um palito de fósforo queimado: não vai ter golpe. As regras serão seguidas com tensão, mas serão seguidas. Bom, pessoal, é isso que a bola de cristal aguinaldiana de primeira geração diz.
(Ah, previsão de marqueteiro político pra mim não conta, embora frequentemente tenham mais argúcia que laboriosos cientistas políticos, sociólogos, jornalistas e filósofos).

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