Há muitos anos, vivia em Zuchnow, um homem chamado Mendel Singer. Piedoso, temente a Deus e em nada extraordinário, era um judeu comum. Em sua casa, constituída apenas de uma cozinha espaçosa, exercia o singelo ofício de professor, transmitindo o conhecimento da Bíblia a crianças. Ensinava com fervor sincero e sem qualquer sucesso espetacular. Centenas de milhares antes dele tinham vivido e ensinado de maneira igual.
Insignificante como seu próprio ser, era seu rosto pálido. Uma barba cerrada, de um preto comum, emoldurava-o por completo, escondendo a boca. Os olhos eram grandes, negros, indolentes e semiencobertos pelas pálpebras pesadas.
[...]
Singer parecia ter pouco tempo e uma infinidade de providências e propósitos urgentes. Decerto, sua vida era de dificuldades constantes e, por vezes, até mesmo um tormento. Precisava vestir e alimentar a mulher e três filhos (e a mulher estava grávida de um quarto). Deus lhe concedera fecundidade, calma no coração e, às mãos, pobreza. Eles não tinham ouro a pesar nem notas de dinheiro para contar. Contudo, a vida seguia adiante, incessante e persistente como um pequeno e pobre riacho entre margens áridas.
08 novembro 2019
Como um pequeno e pobre riacho entre margens áridas
Há alguns dias, numa tarde qualquer, eis que eu, coração sempre aflito e com um cérebro carregado de pensamentos sombrios sobre o futuro de nosso país, perambulava pelos corredores da Biblioteca Central da UEL. Muito bem, até aí um fato banal. Mas qual não foi minha surpresa quando caiu em minhas mãos o livro Jó: romance de um homem simples, de Joseph Roth. Caiu em minhas mãos com uma súplica inocente, um clamor singelo de atenção. Não resisti e tentei dar a melhor acolhida a tão carente objeto.
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