Foi assim, sem preliminares retóricas, que o meu Eu 2 foi direto ao ponto em sua conversa habitual com meu Eu 1. "Quem você mais ama?", indagou o impertinente. Pedi (eu, o Eu 1) que ele explicasse a pergunta, ele sorriu e disse “puxa, pensei que você lesse meus pensamentos”. Ele se referia a se eu amava mais a nós mesmos (os dois Eus unidos) ou o bem geral da nação. Ou seja, ele queria saber se o amor-próprio seria dominante sobre outros afetos e interesses.
Suponha que eu tenha feito a profecia de que o governo de Bolsonaro será um desastre, de que o Brasil não viverá uma era de prosperidade econômica e de que as pessoas serão perseguidas e aniquiladas por causa de suas opiniões, cor da pele, inclinação sexual e demais quesitos considerados relevantes para a caçada. Uma vez que predisse isso, devo agora torcer para que minhas predições não se confirmem?
Devo torcer para estar errado? Ora, quem eu mais amo sou eu mesmo, o que inclui amar estar certo.
Acontece que eu também amo a coletividade, eu também torço para que o Brasil prospere, para que no Brasil floresça a liberdade e não a servidão. Qual desses dois amores pesa mais?
Ouvi dizer que em geral o querido e amado Eu vai na frente. Então eu vou torcer contra o Brasil sob a presidência de Bolsonaro? Sim, sim, sim, as pessoas sentirão na pele que estavam erradas e lembrarão, se não lembrarem espontaneamente eu as farei lembrar, que eu tinha avisado. "Eu avisei, eu avisei". Ah, como é bom estar certo. O Brasil, oh..., o Brasil é algo muito abstrato. Já o meu querido e amado Eu não. Ele é mui nobre e valoroso e a ele meu amor será sempre fiel. (A leitura denotativa não é recomendada).
