VENDEDOR - Almanaques, almanaques novos, lunários novos. Vai querer, senhor, almanaques?
PASSANTE - Almanaques para o ano novo?
VENDEDOR - Sim senhor.
PASSANTE - Crês que será feliz esse ano novo?
VENDEDOR - Oh, sim, ilustríssimo, certamente.
PASSANTE - Como no ano passado?
VENDEDOR – Muito, muito mais.
PASSANTE – Como no ano retrasado?
VENDEDOR – Mais, mais, ilustríssimo.
PASSANTE – Mas como que outro? Não te agradaria que o ano novo fosse como qualquer um desses últimos anos?
VENDEDOR – Não, senhor, não gostaria.
....
PASSANTE - Não te lembras de nenhum ano em particular que te pareceu feliz?
VENDEDOR – Na verdade, não, ilustríssimo.
PASSANTE – No entanto a vida é uma bela coisa. Não é verdade?
VENDEDOR – Isso sim.
....
PASSANTE - ... se tivesses de refazer a vida que tiveste exatamente igual, com todos os prazeres e os desprazeres que passaste, ainda a desejarias?
VENDEDOR – Isso eu não queria.
...
PASSANTE – Mas de que vida tu, então, gostarias?
VENDEDOR – Gostaria assim de uma vida que Deus me mandasse sem outros compromissos.
PASSANTE – Uma vida ao acaso, sem saber nada do que vem pela frente, como não se conhece a do ano novo?
VENDEDOR – Exatamente. Isso mesmo.
PASSANTE – Essa eu também queria reviver e assim todos. Mas esta é a prova de que o acaso, até o presente, tratou mal a todos. E se vê claramente que cada um é da opinião que foi mais e de maior peso o mal que coube a si, do que o bem; e que, sob a condição de reaver a vida de antes com todos os seus bens e seus males, ninguém quer renascer. A vida, que é uma coisa linda, não é a que se conhece, mas a que não se conhece; não é a vida passada, mas a futura. Com o ano novo o acaso começará a tratar bem a ti, a mim e a todos os outros e começará a vida feliz, não é verdade?
VENDEDOR – Esperemos.
PASSANTE – Então, mostra-me o almanaque mais bonito que tens.
(Giacomo Leopardi. "Diálogo de um vendedor de almanaques e um passante".
In: Opúsculos morais)
In: Opúsculos morais)
Leopardi força a barra. Não é bem assim, mas é um pouco.
