Pouco cuidoso de saber qual rei é temido sob a Ursa gelada ou o que causa medo a Tiridates”. (Horácio, Odes, I, xxvi, 3)mal ouso dizer as falhas e fraquezas que percebo em mim. Tenho o pé tão pouco seguro, fraqueja tão facilmente, titubeia tão sem motivo, e minha vista é tão desregulada, que em jejum me sinto diferente do que depois de comer; se estou satisfeito com minha saúde, se faz bom tempo, eis-me um homem amável; se um calo me dói, fico aborrecido, desagradável, inabordável; um cavalo cujo andar não varia parece-me ora duro ora suave; o mesmo caminho parece-me curto por vezes e por vezes longo.
Segundo a hora, a forma de um objeto ser-me-á agradável ou não; quero e não quero empreender alguma coisa e o que me apetece agora, contraria-me depois. Mil agitações inoportunas e acidentais verificam-se em mim; ou sou tomado de melancolia ou de cólera; em outro momento é a tristeza que me envolve, mas logo a seguir a alegria vence.
Quando pego um livro, capto em determinada passagem qualidades excelentes que me impressionam e encantam. Quando uma outra vez volto a deparar com ela, por mais que a vire e revire, por mais que a dobre e apalpe, é para mim uma massa desconhecida e informe.
Nos meus próprios escritos nem sempre redescubro o meu pensamento, não sei mais o que desejei exprimir e não raro me esforço por corrigi-lo, modificá-lo, pois o significado primeiro, por certo mais interessante, me escapa. Não faço senão ir e vir. Meu julgamento não segue uma linha reta, flutua ao léu:
Como um barquinho frágil surpreendido no vasto mar por uma tempestade violenta. (Catulo, XXV, 12)Muitas vezes, o que faço de bom grado como exercício defendendo uma tese contrária à minha opinião, absorvo-me a tal ponto na tarefa, que não mais percebo as razões de minha verdadeira ideia e a abandono. Empurro-me, por assim dizer, para o lado de minhas tendências. E deixo-me levar por elas. [...]
Os que falam em público sabem muito bem que a emoção os induz a acreditarem no que afirmam. Quando estamos com raiva, aplicamo-nos melhor na defesa de nossa ideia; imprimimo-la em nós, abraçamo-la com veemência e a consideramos mais justa do que quando estamos calmos e de sangue frio.
Expomos uma questão a um advogado; sentimo-lo hesitante e sem convicção: é-lhe indiferente defender esta ou aquela causa. Se o pagamos bem para se colocar do nosso lado, começa a interessar-se. E se sua vontade se aquece, eis que se aquecem ao mesmo tempo sua razão e seu saber e a verdade aparente deixa de lhe inspirar a menor dúvida. Persuade-se de que assim é, e o crê.
(Montaigne, Ensaios, II, 12).
É nesses homens racionais (bã... mui racionais!) que eu acredito, não nos bonecos de aparência humana, calmos, ponderados, de voz mansa, que muito bem explicam, muito bem demonstram, mas nada mostram porque jamais se mostram.
A conversa foi boa ontem, meu bom Montaigne. Desculpe aquela veemência toda, cheguei a ser extremante irascível (como é difícil ser comedidamente irascível). É que só de saber que alguém pensa daquele jeito, que alguém pode ser tão estúpido, eu chego a espumar de raiva. E depois aquela senhora, o que ela estava fazendo ali? Você também não entendeu, não é? Foi melhor expulsá-la sob os mais abjetos xingamentos, não acha? Nada elegante, mas pelo menos ela não volta mais. Essa porra do calo...