Querido Frédi,
Têm me perturbado muito as coisas que te escrevi na última carta. Teu silêncio me preocupa. Talvez nossas cartas se cruzem no caminho, não sei. Minha ansiedade é grande. Prefiro escrever e tentar me explicar melhor a ficar na passividade, aguardando uma reposta que talvez não venha. Talvez tu tenhas ficado magoado com minhas palavras e decidido, por causa delas, me abandonar.
Bem, eu preciso confessar: fui infeliz ao dizer o que disse. Não, não foi apenas infelicidade na escolha das palavras. Dói admitir, mas era o que eu acreditava naquele momento. Eu realmente pensava que tu não fazias filosofia. Tinha uma visão de que a filosofia deveria ser "exatamente isso, não aquilo". Hoje, depois de muito refletir sobre o que tu me disseste e também depois de muito ouvir outras pessoas falarem sobre temas análogos aos teus, vejo de modo bem frouxo o que significa a filosofia. Não, por favor, não me entenda mal. Não é por causa de uma visão licenciosa da filosofia que acalento o desejo de que tu, se estiveres de fato aborrecido comigo, voltes atrás e me dê uma nova chance. Note que há coisas mais profundas quando digo que hoje vejo a filosofia de modo não sectário como via há alguns anos. Espero que tu não sejas também tão melindroso como aquele nosso amiguinho. Se nossa relação sobreviver, que seja, doravante, pautada na mais absoluta franqueza.
O teu estilo é fascinante, tu sempre soubeste disso, sempre tiveste ciência de minha admiração literária por tua obra. Continua, porém, a me incomodar essa tua má vontade comigo. Essa mania de oráculo. Perceba: digo que isso me incomoda, não digo mais que isso não é filosofia. Acho que é sim. Também é filosofia, ok. E talvez minha resistência nem seja em virtude do objeto, da matéria, mas da forma.
Sinto que talvez tu não estejas me entendendo. É o seguinte: eu prefiro a redundância à concisão. Entendeste agora? Tem coisas boas no rebanho. Tu pensas que só os notáveis podem sacar as coisas? Estás errado, Frédi, meu velho amigo. Abra o jogo, tu também. Não me digas que é por causa daquele fracasso existencial? Não deveria tocar nesses assuntos, não é? Tu preferes filosofar sobre filosofia? Hum, nem sempre foste assim. Já eu tenho preferido filosofar sobre algo mais latejante, por exemplo, sobre alguém de carne e osso, que pode ser tu ou eu, sem problemas.
Que merda, não queria escrever essas coisas, não desse jeito. Mas, por incondicional e cega obediência aos meus princípios, não edito cartas. Vai assim mesmo. É melhor tu saberes o que eu sinto, mesmo que isso te entristeça. Poderás ainda reclamar, quem sabe, do propósito enigmático de tudo isso. Ora, Frédi, não há nada de enigmático aqui. Estou apenas levantando uma bandeira branca, olha.
Vou voltar à leitura daquele autor redundante.
Um forte abraço, meu bom amigo.