Pô, agora o Schopenhauer me magoou.
“A maioria das pessoas é tão subjetiva, que, no fundo, nada lhes interessa a não ser exclusivamente elas mesmas. Disso resulta que, não importa o que se diga, pensam de imediato em si mesmas, e até a mais remota referência a algo que se refira a elas atrai e cativa toda a sua atenção, de tal modo que não lhes resta força nenhuma para conceber a parte objetiva da conversa, bem como não há nenhum argumento válido quando seu interesse ou sua vaidade são contrariados. Por isso, são tão facilmente distraídas, feridas, ofendidas ou afligidas que, mesmo numa conversa objetiva com elas, sobre qualquer tema, nunca conseguimos ter cautela suficiente para lidar com alguma reação possível e talvez desfavorável que o discurso possa ter com o valioso e delicado “eu” diante de nós.
[...] Têm a mais delicada sensibilidade para tudo que possa, mesmo que de maneira remota e indireta, ferir a sua vaidade mesquinha ou de algum modo refletir desvantajosamente sobre seu preciosíssimo “eu”. Em sua suscetibilidade assemelham-se ao cãozinho, em cuja pata é muito fácil pisar por descuido, para depois termos de ouvir os seus gemidos, ou a um doente coberto de chagas e inchaços, que temos de evitar cuidadosamente tocar. Em muitos, tal suscetibilidade chega a tal ponto, que sentem exatamente como uma ofensa se, numa conversa, mostramos espírito e entendimento, ou pelo menos não os ocultamos de modo suficiente”.
(Aforismos para a sabedoria de vida. Tradução de Jair Barboza. Martins Fontes, 2006).