11 dezembro 2015

Como me tornei um idiota

Depois dos famosos posts "Como me tornei um liberal" (2008) e "Como me tornei um anarquista" (2013), chegou a hora da maior revelação (ou, melhor, da confissão pública). Quero contar para vocês como me tornei um idiota. Foi mais ou menos assim.

Tudo começou com encômios dirigidos a mim. Os elogios vinham de todos os lugares e eu cai na tentação de acreditar neles. “Como você é interessante”. E eu, “sim, sim, eu sou’. O espelho também contribuía. Eu olhava minha imagem e me achava lindo. Me olho e continuo me achando. Hoje sou um idiota completo e incorrigível. 

Quando escrevo que me tornei idiota quero justamente dizer que houve um tempo em que eu não era idiota. Sei que muitos dirão, “ah, você sempre foi um idiota”. Mas, deixem-me dizer, eu não sou adepto da teoria da idiotice congênita. Acho que me tornei mesmo. Bem, naquela época, saudosa época de não idiotice, eu respeitava todas as pessoas, suas crenças e opiniões. Curiosamente, minha idiotice é um mal social (não, não é curioso, que idiotice). Penso que é assim com todas as idiotices. Bom, acho um tanto bizarro o fato de que hoje é o pensamento de conseguir, às vezes (só às vezes), esconder que sou idiota que me torna ainda mais idiota. Em se tratando de idiotice o autoconhecimento não é curativo. 

Eu até adotei várias estratégias mentais para fugir do problema. Eu pensava: todos são idiotas num certo sentido, então está tudo bem. Eu também sou idiota, ok, assim como o resto dos mamíferos humanos. Porém, com o tempo, comecei a perceber que não era isso. Nem todos são idiotas e buscar consolo numa suposta idiotice generalizada era o próprio atestado de que estava me tornando idiota. Não demorou muito para chegar ao estágio da absoluta idiotice. Estratégia de fuga análoga consistia em dizer - antes que alguém insinuasse qualquer dúvida - que eu era um idiota. Eu pensava que, me antecipando assim, as pessoas pensariam que eu não era idiota, ou, se fosse, não seria tão idiota. Ledo engano. Logo notei que essa era a ladeira escorregadia que me conduziria à danação, ao poço sem fundo da mais rematada idiotice.

Outra coisa que descobri é que, no tempo em que não era idiota, eu procurava por sentidos ocultos nas palavras. Depois, talvez por preguiça, não sei, assumi a postura do leitor denotativo. Tudo tinha um sentido literal. Percebendo essas coisas, eu fui praticamente coagido a reconhecer que havia me tornado um patético e ridículo idiota. Meu único lenitivo tem sido o pensamento de que sou um idiota inofensivo. Mas talvez isso seja o cúmulo da idiotice. 

Outro sinal incrível de que me tornei um idiota é querer brincar com as palavras e ver graça na própria incoerência mental. Talvez nem seja mais idiotice. Talvez seja a própria demência.

Escrevi essas coisas acima e passei para um amigo dar uma olhada. Disse, "lê isso aqui, quero publicar no blog". Ele, sempre franco comigo, depois de ter lido (na minha frente, com cara de piedade), olhou nos meus olhos e proferiu o seguinte conselho. "Não publique isso, Aguinaldo. Não seja idiota”.