08 dezembro 2015

A carta de Temer: uma preciosidade

As palavras voam, os escritos se mantêm. Formidável essa carta do Temer [está reproduzida abaixo]. Eu a leio como néscio político total. Desligo qualquer botãozinho de suspeição prudencial acerca dos bastidores do poder. O que me chamou atenção na carta foi a possibilidade de ela ter sido escrita com alguma sinceridade. Gosto de acalentar a suposição de que realmente o Temer tenha desabafado. Sei que é um lance no jogo político. Ninguém desabafa assim numa carta que terá ampla divulgação (*). Mas às vezes não conseguimos nos esconder tanto. Acabamos dizendo algumas coisas. E mesmo que tudo possa ser adorno retórico, eu gostaria de fazer uma exercício de imaginação e pensar que não, que não é só encenação. Há um fundo humano interessante, mesmo que a peça seja meramente fictícia. 

Os reclames de Temer se assemelham às queixas que amigos fazem. Queria ser mais reconhecido. Queria que você confiasse mais em mim. Porra, por que você não confia em mim? Por que você não me concede mais protagonismo na vida? Por que você faz me sentir pequeno, inexpressivo, eu que me julgo repleto de qualidades? Por quê? Eu não quero ser algo apenas decorativo. Não, eu não quero. Eu não quero sombras, eu quero o sol. 

A senhora recebeu o vice-presidente dos EUA e não me convidou. Cara, essa é a parte mais tocante para mim. Percebam, não te convidam para o encontro com alguém, alguém importante como o Vice-Presidente dos EUA, e com quem você julga ter construído uma “boa amizade”. Não tem jeito, por detrás das cortinas do teatro político está sempre o ser humano, carente e chorão. E isso me sensibiliza. 

O dia hoje é especial por causa da leitura dessa carta. 

Obrigado Temer.

(*) últimas informações dizem que a carta vazou. isso é mais difícil de acreditar. de todo modo, seria, para mim, ainda mais interessante. seria, seria. mas é improvável que Temer não calculasse que a carta se tornaria pública ou que não quisesse isso.


São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.Senhora Presidente,“Verba volant, scripta manent''. [As palavras voam, os escritos se mantêm]Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança.E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido.Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo.Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.1. Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários.3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone.4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas “desfeitas'', culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC.Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta “conspiração''.5. Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal.Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários.Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequencia no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação.6. De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido.Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.7. Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento.Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar.8. Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden – com quem construí boa amizade – sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da “espionagem'' americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança.9. Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma conexão com o teor da conversa.10. Até o programa “Uma Ponte para o Futuro'', aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal.11. PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso.A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais.Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã.Lamento, mas esta é a minha convicção.Respeitosamente, \ L TEMERA Sua Excelência a SenhoraDoutora DILMA ROUSSEFFPresidente da República do BrasilPalácio do PlanaltoBrasília, D.F.